Saúde emocional e física

Um longo período de tensão tem potencial para causar alterações que abrem caminho para várias doenças. A relação entre saúde emocional e física, entre mente e o corpo costuma ser próxima, podendo o estado de uma ser causa de efeitos na outra. O cérebro, através do hipotálamo, controla as glândulas responsáveis por substâncias hormonais.

O cérebro controla a frequência cardíaca, a pressão arterial, a respiração e decide a quantidade de informação que chega ao pensamento e a intensidade da dor. Por ser tão influente no organismo, quando a mente padece de uma patologia, o corpo tem a tendência para seguir o mesmo rumo.

Há um entendimento na psicologia de que toda doença física tem relação com a saúde mental. Os sintomas psicossomáticos são como quaisquer outros e devem, também eles, ser objeto de escrutínio por parte dos profissionais de saúde.

A literatura médica relata várias pesquisas sobre psicossomática. Existem trabalhos clássicos, como o de Walter Cannon (famoso fisiologista de Harvard que avaliou as alterações fisiológicas decorrentes da excitação), que comprovam as modificações fisiológicas nos estados de fome, raiva e medo – que podem acontecer por influência do sistema nervoso vegetativo.

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A relação entre saúde emocional e física…

Segundo Donald Winnicott (famoso pediatra e psicanalista), tudo está relacionado com os primeiros cuidados que recebemos, ainda enquanto bebés. Ele observa que um desenvolvimento saudável da psique humana favorece a evolução física e que dificuldades emocionais podem gerar situações psicossomáticas graves.

Já de acordo com a teoria psicossomática de Pierre Marty (pioneiro em estudos sobre psicossomática), o indivíduo reage a traumas conforme a sua organização mental. Cada pessoa tem uma forma de reagir e de somatizar os traumas, dependendo da sua história de vida e bagagem genética. O ser humano é um sistema complexo de interações que podem estar em equilíbrio ou não. Um trauma pode ser mais desordenador para uns do que para outros, dependendo da organização de cada um. Segundo ele, a dinâmica e a relação entre saúde emocional e física varia de individuo para individuo.

Quando uma pessoa sofre um trauma, há um movimento de desorganização interna que atinge primeiro as estruturas mais evoluídas, adquiridas durante o desenvolvimento. Conhecendo-se o funcionamento de uma pessoa, é possível prever o seu modo de reação perante os traumas.

A percepção negativa de si mesmo, do mundo e hábitos agravados por situações tensas (pandemia, desemprego, morte de familiar, perda de imóvel etc.) podem provocar um declínio da saúde emocional e física.

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Quais são as doenças mais comuns que o cérebro tende a produzir?

O intestino é uma das áreas do corpo mais afetadas pelo estado emocional, por pensamentos e sentimentos gerados pelo cérebro. Por ter um sistema nervoso autónomo o intestino pode funcionar sozinho, tem sua própria independência para tomar decisões. No entanto, apesar do funcionamento independente, ele comunica-se com o Sistema Nervoso Central (SNC) através dos sistemas simpático e parassimpático, fazendo com que se ligue aos níveis de stress e ao estado emocional de cada um.

Existem diversas outras doenças que podem ser causadas pelo cérebro como: enxaqueca, dormência, formigueiros, problemas dermatológicos provocados pelo sistema nervoso, taquicardia, dores musculares, contraturas, amidalite, gripe, gastrite, úlcera – enfim, uma lista interminável.

É possível a somatização em relação ao Coronavírus?

A pandemia do Coronavírus gerou somatizações em toda o mundo, devido ao elevado grau de ansiedade que o problema causou. De repente, por toda a sensação de medo que a pandemia envolve, a pessoa pode passar a ter alguns sintomas do vírus como: dores de cabeça, falta de ar, tosse, dores no corpo, sensação de falta de ar, coração disparado, diarreia – além do pânico pela possibilidade da morte.

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Como os sintomas são reais e podem confundir as pessoas, fazendo-as acreditar que contraíram o vírus, é necessário de qualquer forma seguir as orientações da OMS, procurar orientação médica e cumprir o distanciamento social se os sintomas persistirem.

O isolamento social, a alteração na rotina e a percepção acelerada da morte acabam por causar um sentimento de fragilidade perante a vida, fazendo-nos refletir que, se não nos focarmos na fé, no sagrado que habita em nós, o problema pode contribuir com quadros intensos de ansiedade causando muitas doenças psicossomáticas.” Esta é a afirmação do psicólogo Sergio Castillo, que também é especialista em dependência química e responsável pela Clínica Grand House, Centro de Tratamento de saúde Mental, dependência química e comorbidades, com mais de 20 anos de experiência na área.

Na relação entre saúde emocional e física, quando há transtornos psíquicos, a somatização é comum?

A dependência química já é considerada um transtorno mental caracterizado por um grupo de sinais e sintomas decorrentes do uso de drogas. Ou seja, um transtorno mental é justamente a alteração do funcionamento da mente.

Pela experiência adquirida no tratamento de dependentes químicos, pode-se ver que a psicossomática nesta área ocorre da mesma forma. Na verdade, o dependente químico precisa ser tratado com um ser psicossomático entre mente e corpo. Não devem ser vistos só os sintomas físicos que ocorrem com o uso das drogas, deve haver a busca da identificação da causa do uso, o seu fortalecimento psíquico para evitar situações de risco que levam a recair, promovendo mudanças de hábitos saudáveis e eliminando comportamentos repetitivos que produzem os mesmos resultados“, completa ainda Sergio Castillo.

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Já em relação à depressão, os problemas não tratados e que se prolongam por muito tempo influenciam no surgimento das doenças psicossomáticas. As emoções não controladas, os pensamentos negativos e a depressão desencadeiam desequilíbrios mentais que sobrecarregam as funções orgânicas e atrapalham o funcionamento do corpo.

É possível protegermo-nos dos distúrbios psicossomáticos?

Procurar terapia é fundamental e pode transformar a vida das pessoas de forma positiva. Os exercícios físicos, as práticas meditativas e algumas técnicas de relaxamento, associados (ou não) à vivência da religiosidade, são também importantes formas de combater a ansiedade e os distúrbios psicossomáticos.

Para mais informações:

Simone Oliva C. Morais – [email protected]

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