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Yoko Ono: O Jardim da Aprendizagem da Liberdade

A vasta obra, em exposição Museu de Arte Contemporânea de Serralves, faz-se acompanhar de instruções que documentam um prelúdio do conceptualismo.

yoko ono O JARDIM DA APRENDIZAGEM DA LIBERDADE
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Yoko Ono: O Jardim da Aprendizagem da Liberdadeuma grande exposição retrospetiva da artista, é a primeira realizada em Portugal inteiramente dedicada à sua obra. Entre o Museu, o Parque e a cidade do Porto, os visitantes podem conhecer um corpo de trabalho que tem um lugar inquestionável na história da arte contemporânea dos séculos XX e XXI. Ao longo de uma carreira de mais de sessenta anos, Yoko Ono manteve-se fiel à sua arte e às suas convicções, sem nunca abandonar as mais prementes questões estéticas, políticas e sociais. Como escreveu o curador Christophe Cherix, no seu livro “Yoko Ono’s lightning years” (2015), “o que torna a arte de Ono tão essencial no nosso tempo é a sua capacidade de se situar sempre no presente e de nunca nos fazer olhar para trás.”

A exposição percorre o trabalho de Yoko Ono através de objetos, obras em papel, instalações, performances, gravações em áudio e filmes, além de materiais de arquivo raramente expostos. Yoko Ono: O Jardim da Aprendizagem da Liberdade apresenta um abrangente panorama da multifacetada produção desta artista pioneira da arte conceptual e da performance. Tal como a artista que nos primeiros anos de sua extensa carreira viveu entre Nova Iorque, Tóquio e Londres, esta exposição também se vai estender por diferentes locais – pelo museu e parque de Serralves e pelas ruas da cidade do Porto.

Yoko Ono teve um papel precursor no desenvolvimento do conceptualismo, da arte performativa e do filme experimental a nível internacional. Ideias, mais do que materiais, são a principal componente do seu trabalho. Muitas dessas ideias são poéticas, absurdas e utópicas, enquanto outras são específicas e práticas. Algumas são transformadas em objetos, enquanto outras permanecem imateriais. Frequentemente, a obra reflete o sentido de humor da artista, bem como sua postura marcadamente socio-crítica.

O ponto de partida para muitos dos trabalhos expostos encontra-se nas suas Instructions [Instruções]: diretrizes orais ou escritas para os espectadores, que oferecem um conjunto de sugestões e atribuem ao público um papel muito mais ativo do que é geralmente esperado no mundo da arte. Ao longo do percurso, o espectador é encorajado por Yoko Ono a experienciar, a tocar e a movimentar objectos integrados nas peças, sendo mesmo desafiado a participar na obra — seja física ou mentalmente. Neste processo de “construção dialogante” a arquitetura do museu é também confrontada pela arquitetura que a artista concebeu nas suas Instructions [Instruções].

Yoko Ono: O Jardim da Aprendizagem da Liberdade, documenta um prelúdio do conceptualismo

Muitos trabalhos da artista presentes na exposição, são concebidos como instruções, muitas das quais estão no seu livro Grapefruit [toranja], publicado pela primeira vez em 1964, no qual reúne as várias instruções escritas, consideradas por Yoko Ono fundamentais no seu processo criativo. As instruções são divididas em diferentes secções: música, pintura, evento, poesia e objeto e é através destas que a artista envolve outras pessoas na construção da obra, ganhando deste modo perspetivas totalmente diferentes. Textos presentes ao longo de toda a mostra contemplam ainda a possibilidade de algumas obras serem apenas construídas mentalmente ou não serem de todo realizadas, numa antecipação do que viria a ser o conceptualismo.

As Instruções para performance também marcarão esta presença de Yoko Ono em Serralves, na linha de uma poética paradoxal que descreve como experiências sensoriais. Na obra Cut piece, uma performer permanece sentada em palco, imóvel e perfeitamente concentrada, enquanto membros do público, um de cada vez, sobem ao palco para cortar um pequeno pedaço da sua roupa para levar consigo. Em Bag Piece (1964) o espectador é convidado a entrar dentro de um saco, que pode ser individual ou duplo e despir-se e voltar a vestir-se. Para Yoko Ono, estar dentro de um saco é permitir mostrar o outro lado, que nada tem a ver com etnia, sexo ou idade. Dentro de um saco, o SER é apenas alma. (estes eventos realizar-se-ão em datas a definir brevemente)

Tal como na pintura ou na performance, Yoko Ono construiu um conjunto de objetos que podem ter como denominação “Objetos por instrução”. Se nos anos 1960 esse objetos eram construídos em acrílico, hoje são apresentados em bronze, contrapondo a leveza e transparência do acrílico à opacidade do bronze. Estas peças tridimensionais são usados para escrever declarações ou marcar posições sobre a sua filosofia. O bronze, considerado pela artista, como um símbolo da violência, é retomado noutras obras apresentadas na exposição como (Helmets [Capacetes] e Hole [Buraco]).  

Sendo a linguagem um elemento estruturante da construção criativa da artista, ao longo da exposição encontramos Obras de palavra(s), diretamente escritas nas paredes, em telas ou em grandes suportes instalados no parque. Encontramos ainda textos sob a forma de tabela, em pequenas placas de metal acopladas às obras, neste caso aos objetos contruídos em acrílico. Muitas vezes, a artista escolheu palavras que podem ter significados diversos ou que podem ser lidas como um verbo no imperativo — respiracorta, imagina. Ono usa uma linguagem minimalista, epigramática e poética. Encontraremos algumas destas obras no Museu, no Parque, mas também espalhadas pela cidade do Porto.

A música e o fime têm também um papel preponderante na exposição revelando a sua importância no desenvolvimento artístico de Yoko Ono. A música da mente ou Insound [Som-interior] são composições, executadas em várias peças – uma peça passa-palavra, uma peça strip-tease e uma peça de público  – que determinam os sons produzidos na mente de cada um dos membros do público durante o concerto. (em data a anunciar)

Os primeiros filmes de Ono, realizados ainda nos anos 1960, refletem a sua forma de demonstrar de forma mais eficaz e poética a relação plasmática entre arte e vida. Os filmes em exibição no Museu, alguns deles realizados em parceria com John Lennon, desafiam a noção tradicional de realização e fazem parte da corrente americana da cultura do filme independente dos anos 1960.

Em Yoko Ono: O Jardim da Aprendizagem da Liberdade, o espetador confrontar-se-á com algumas estruturas arquitetónicas que se impõem no espaço e que seguem os desenhos técnicos originais de George Maciunas, um dos fundadores, a par de Ono e John Cage, do movimento FLUXUS. Para Yoko Ono, a arquitetura consiste numa criação mental, desenvolvida através de uma investigação da artista do espaço arquitetónico como um vazio histórico. Alguns desses projetos são reconstituídos nesta exposição e transcrevem as peças dedicadas a Maciunas, que transpôs as instruções da artista para projetos arquitetónicos reais.

Já nos anos 1990, a artista torna-se cada vez mais ativa, apresentando exposições por todo o mundo, e desenvolve um papel muito significativo no contexto da intervenção  política e social. Obras como EX IT, 1997/2020, executada a partir dos desenhos e instruções da artista, é constituída por cem caixões de diversos tamanhos — homem, mulher, criança — e por cem árvores que deles emergem, demonstram-no. A metáfora construída pela associação da vida (árvore) e da morte de vítimas anónimas assumem uma presença fortíssima na exposição. Os caixões, construídos da forma muito simples, como aqueles que existem em situações de catástrofe, preenchem uma das salas da exposição.

Em Serralves, as peças Add Color (Refugee Boat) [Adicione cor [Barco de refugiados)] ou Arising são outras obras que para além de solicitarem a participação do público, transmitem um posicionamento social, nomeadamente sobre a questão dos refugiados e sobre a discriminação exercida sobre as mulheres. A instalação Arising convoca mesmo as mulheres que foram vítimas de discriminação a deixarem o seu testemunho.

A exposição estende-se ao Parque de Serralves, onde para além das peças de palavras de grandes dimensões situadas em vários locais escolhidos, encontraremos outras obras contruídas segundo as instruções da artista, como é exemplo a peça Garden Sets [Equipamentos de jardim], 1964/2020 ou To See the Sky [Para ver o céu], obra instalada no Pátio do Ulmeiro. Constituída por uma escada em caracol pintada de azul, na tonalidade do céu de Manhattan, a escada está longe do céu e mostra que não somos suficientemente altos para o poder tocar. As escadas tem um significado muito especial que a artista associa ao céu e às possibilidades infinitas da vida, da criação, da capacidade humana de amar.

Ocasionalmente, o visitante cruza-se com a emblemática obra Wish Tree [Árvore dos desejos], 1996/2020, instalada em oliveiras centenárias, convidando-o a escrever os seus desejos pessoais pela paz e a atá-los ao ramo de uma árvore.

Sobre Yoko Ono

Yoko Ono nasceu em Tóquio em 1933 e mudou-se para Nova Iorque em 1953, após ter estudado filosofia no Japão. Em finais dos anos 1950 fazia já parte das vibrantes atividades vanguardistas nova-iorquinas. O seu loft na Chambers Street abriu em 1960 ao público, e foi aí que ela e La Monte Young apresentaram uma série de performances radicais e expuseram materializações das suas primeiras obras conceptuais.

Em 1961 realizou uma exposição individual das suas Instructions Paintings [Pinturas-instruções] na AG Gallery, a lendária galeria de George Maciunas em Nova Iorque, e nesse mesmo ano apresentou no Carnegie Recital Hall um concerto a solo com trabalhos revolucionários que incluíam movimento, som e voz. Em 1962 regressa a Tóquio, apresentando no Sogetsu Art Center uma versão ampliada da sua performance de Nova Iorque e expondo as suas Instructions Paintings.

Em 1964, Ono apresentou em Quioto e Tóquio a performance Cut Piece [Peça de corte] e publicou Grapefruit [Toranja], livro que reúne as instruções das suas peças conceptuais. No final do ano regressou a Nova Iorque. Em 1965 apresentou a Cut Piece durante um concerto no Carnegie Recital Hall, a Bag Piece [Peça-saco] num evento a solo no Perpetual Fluxus Festival e em setembro a Sky Piece to Jesus Christ[Peça de céu para Jesus Cristo] durante o concerto da Fluxorchestra no Carnegie Recital Hall.

Em 1966 fez a primeira versão de Film No. 4 (Bottoms) [Filme n.º 4 (Rabos)] e participou na instalação colaborativa The Stone, na Judson Gallery. No outono de 1966 foi convidada a fazer parte do simpósio “Destruction in Art” [Destruição na arte] em Londres, onde mais tarde apresentou duas exposições individuais: nesse ano na Indica Gallery, e no ano seguinte na Lisson Gallery. Neste período também apresentou uma série de concertos por toda a Inglaterra. Em 1969, em conjunto com John Lennon, apresentou Bed-in [Na cama] e realizou a campanha internacional para a paz War Is Over! (if you want it) [A guerra acabou! (se o quiseres)].

Yoko Ono viaja todos os anos para a Islândia para acender a sua IMAGINE PEACE TOWER [Torre Imagina a paz], que criou em 2007 como instalação permanente na Ilha Viðey, e continua a trabalhar incansavelmente para a paz na sua campanha IMAGINE PEACE [Imagina a paz]. 

Atualmente, Yoko Ono é amplamente reconhecida pelos seus filmes pioneiros e a sua música radical, gravações e concertos, assim como pelas suas performances. Os seus filmes Fly [Mosca], RAPE [Violação], Film No. 4, para mencionar apenas alguns, são considerados clássicos do filme do século XX e a sua música foi finalmente reconhecida como estando na génese de muitas das formas musicais da new wave que têm circulado pelo mundo. 

Yoko Ono já expôs o seu trabalho por todo o mundo, incluindo grandes exposições itinerantes, bienais e trienais. Em 2009 recebeu o Leão de Ouro de Carreira na Bienal de Veneza. Entre as suas grandes exposições itinerantes contam-se: YES YOKO ONO (2000—2001), organizada pela Japan Society de Nova Iorque, que foi apresentada nos Estados Unidos, no Japão, no Canadá e na Coreia; e YOKO ONO: HALF-A-WIND SHOW — A RETROSPECTIVE (2013—2014), apresentada na Schirn Kunsthalle em Frankfurt, no Louisiana Museu de Arte Moderna na Dinamarca, na Kunsthalle Krems na Áustria, e no Guggenheim Bilbao, Espanha; YOKO ONO: ONE WOMAN SHOW, 1960—1971 abriu em maio de 2015 no Museum of Modern Art em Nova Iorque e foi seguida por exposições individuais no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio (MOT) e na Fundação Faurschou de Beijing no mesmo ano.

Em 2016 Ono teve a sua primeira retrospetiva em França: YOKO ONO: Lumière de l’aubefoi apresentada no MAC Lyon; seguiu-se a inauguração de SKYLANDING, a sua instalação permanente no Jackson Park de Chicago e uma exposição individual no Museu Macedónio de Arte Contemporânea em Salónica, na Grécia.

Em 2017 os seus trabalhos foram apresentados em: YOKO ONO: Four Works for Washington and the World no Hirshhorn Museum and Sculpture Garden; Prospect.4 em Nova Orleães, assim como na Tate Modern e no C3A — Centro de Creación Contemporánea em Córdova (em curso); teve ainda uma exposição individual na Kunsthal Charlottenborg em Copenhaga intituladaYOKO ONO: TRANSMISSION.

Em 2018, uma nova versão da sua obra ONOCHORD foi apresentada no Farol Henningsvaer, em Lofoten, Noruega. As exposições individuais de 2018 e 2019 incluíram: Double Fantasy – John & Yoko no Museu de Liverpool; YOKO ONO: LOOKING FOR… em Cambridge; YOKO ONO: PEACE is POWER no Museum der bildenden Künste (MdbK), em Leipzig; Yoko Ono: Poetry, Painting, Music, Objects, Events and Wish Trees na Poetry Foundation, em Chicago; YOKO ONO: LIBERTÉ CONQUÉRANTE/GROWING FREEDOM na Fondation Phi pour l’art contemporain em Montreal; os seus BELLS FOR PEACE para o Festival Internacional de Manchester; YOKO ONO: REMEMBERING THE FUTURE no Everson Museum of Art em Syracuse; YOKO ONO: INTERVENTIONS/2 no Georgian House Museum, Bristol, Inglaterra; Yoko Ono: The Sky Is Always Clear no Museu de Arte Moderna de Moscovo; e YOKO ONO: ADD COLOR (REFUGEE BOAT) no Unter Dem U, em Dortmund, na Alemanha.

Em 2019, os seus trabalhos também foram expostos no Museum of Modern Art, Nova Iorque, no MAXXI, Roma, e na Faurschou Foundation de Nova Iorque. Próximas exposições em 2020 incluem a exposição individual YOKO ONO: O JARDIM DA APRENDIZAGEM DA LIBERDADE no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, Portugal, assim como a inauguração da sua instalação permanente Wish Trees for Peace, em Château La Coste, na Provença, França.

Para mais informações:

Fernando  Rodrigues Pereira
Assessoria de Imprensa / Press Officer Telm. 00 351 925409295
[email protected]
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