MARYANNE AMACHER serralves

Maryanne Amacher (1938-2009) destacou-se na criação de instalações sonoras e ambientes multimédia de grande escala. Estudou com Karlheinz Stockhausen e colaborou com Merce Cunningham e com John Cage. O seu trabalho foi pioneiro e visionário em várias áreas da criação musical e artística como a espacialização sonora, os novos media, a ecologia acústica, a inteligência artificial ou a psicoacústica.

O programa de Additional Tones: A Tribute to Maryanne Amacher surge em consonância com o recente e crescente reconhecimento internacional da importância e singularidade da obra de Amacher que vem sendo manifesto em acontecimentos como a aquisição dos arquivos da artista pela New York Public Library for the Performing Arts no Lincoln Center, a constituição da The Maryanne Amacher Foundation e eventos dedicados à sua obra organizados por instituições como a Tate Modern e ICA em Londres, o Stedelijk Museum em Amesterdão e a Bienal de São Paulo.    

Deste tributo  fazem parte um seminário e sessão de audição orientados pelos investigadores Amy Cimini e Bill Dietz e dedicados às séries Music for Sound Joined Rooms e Mini Sound Series de Amacher; a estreia nacional do filme Sisters With Transistors sobre o trabalho pioneiro de várias mulheres que marcaram a história da música eletrónica; a interpretação da composição Petra pelo duo inédito de pianistas constituído pela Marianne Schroeder e Joana Gama; e ainda, a estreia nacional de Perceptual Geographies de Thomas Ankersmit, uma peça inspirada por e dedicada a Amacher.

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O programa será também marcado pelo arranque da série vídeo de leituras e discussões online Remote Links, uma colaboração com a New York Public Library que celebra a publicação de Maryanne Amacher: Selected Writings and Interviews e que decorrerá até março.

Notas biográficas de Maryanne Amacher…

Maryanne Amacher (1938-2009) foi uma compositora norte-americana que se destacou na criação de instalações sonoras e ambientes multimédia de grande escala e duração determinada. Estudou com Karlheinz Stockhausen e colaborou com Merce Cunningham e com John Cage. O seu trabalho foi pioneiro e visionário em várias áreas da criação musical e artística como a espacialização sonora, os novos media, a ecologia acústica, a inteligência artificial ou a psicoacústica, entre outras.

Ainda nos anos 1960, Amacher iniciava o trabalho com o que designava por “música de longa distância”, ou telemática, e que se viria a consolidar na série City Links, baseada na mistura em tempo real e num dado lugar dos sons transmitidos a partir de vários lugares e cidades remotos através de linhas telefónicas. Nos anos 1970, especializava-se no trabalho com o sintetizador Triadex Muse desenvolvido por Marvin Minsky usando princípios da inteligência artificial. A sua Mini Sound Series, explorou o potencial dos sons enquanto personagens, aplicando os princípios dramáticos das séries televisivas e de outras formatos populares ao relacionamento entre os sons e às formas como estes eram percecionados e transformados ao longo dos vários “episódios”.

Uma outra série de trabalhos central na obra de Amacher é Music for Sound Joined Rooms onde se inclui The Sounding of Casa de Serralves: Supreme Connectionsapresentado em 2002. Nesta instalação sonora, visual e performativa, a Casa de Serralves foi transformada num lugar de experiências multidimensionais e imersivas. O som difundia-se através da estrutura arquitetónica, pelas salas, quartos, colunas e antecâmaras.

A arquitetura dava forma à propagação do som e à sua audição. Os espaços da casa tornaram-se parte integrante do sistema de som e a casa, ela própria, num gigante instrumento musical. Em diferentes salas podíamos encontrar também elementos cénicos, ou vídeos e, desde o interior da casa, observavam-se estranhas criaturas a habitar os jardins no seu entorno. Para além de refletir a investigação de Amacher sobre a materialidade do som e as formas como este se propaga no espaço, este trabalho refletia ainda a exploração da fenomenologia da perceção (incluindo, nomeadamente, os sons emitidos pelo próprio ouvido) e da encenação da experiência enquanto elemento essencial nos processos de perceção.  

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Programa de “Additional Tones: a Tribute to Maryanne Amacher”

08 JAN

AMY CIMINI E BILL DIETZ

18h00 : Seminário e Sessão de Audição 

20h00: REMOTE LINKS (Introduction)/ Lançamento do livro Maryanne Amacher: Selected Writings and Interviews

09 JAN

11h00: SISTERS WITH TRANSISTORS de LISA ROVNER (filme em estreia nacional)

10 JAN

10h30: MARIANNE SCHROEDER & JOANA GAMA apresentam PETRA de Maryanne Amacher

11h00: THOMAS ANKERSMIT apresenta PERCEPTUAL GEOGRAPHIES

JAN – MAR: REMOTE LINKS – série de leituras e discussões online em torno do livro Maryanne Amacher: Selected Writings and Interviews.

Sinopses

AMY CIMINI E BILL DIETZ

Seminário e Sessão de Audição

Desde 2016, Amy Cimini e Bill Dietz têm levado a cabo uma série de seminários e sessões de audição com o objetivo de facilitar o acesso aos conteúdos ainda largamente inacessíveis do The Maryanne Amacher Archive. Para o programa Additional Tones, Cimini e Dietz conceberam um Seminário e Sessão de Audição dedicados aos formatos de apresentação de grande escala que Amacher iniciou em princípios dos anos 80 e que enquadraram o seu trabalho de 2002, The Sounding of Casa de Serralves: Supreme Connections.

No final dos anos 1970, o trabalho de Maryanne Amacher expandiu-se para uma escala arquitetónica. Uma vez que, desse momento em diante, nos seus trabalhos “o público entra no mundo duma história – entra nos seus cenários “, Amacher estabeleceu dois formatos de apresentação novos e interligados por forma a permitir aos visitantes a navegação por essas obras sonoras imersivamente encenadas: MUSIC FOR SOUND JOINED ROOMS eMINI SOUND SERIES.

Assim escreve Amacher sobre essas séries, em 1985: “Com os conceitos dramatúrgicos dessas obras, desejo alcançar um novo género de experiência sonora, distinto das formas de instalação minimalistas e mais passivas desenvolvidas nas décadas de 1970 e 1980”. Ao longo dos 20 anos seguintes, Amacher apresentaria iterações da MUSIC FOR SOUND JOINED ROOMS SERIES, bem como da MINI SOUND SERIES, nos Estados Unidos, Europa e Japão.

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Conforme relatado numa entrevista de 1989, o formato foi um grande sucesso com “uma procura de bilhetes em […] Berlim tão grande que o número de apresentações aumentou de oito para dezoito, […] e filas em São Francisco que davam a volta ao quarteirão.” Este Seminário e Sessão de Audição oferecem uma seleção de documentos, imagens e áudio de várias iterações da MINI SOUND SERIES eMUSIC FOR SOUND JOINED ROOMS, culminando com documentação contextualizada de The Sounding of Casa de Serralves: Supreme Connections.

Amy Cimini é uma historiadora e intérprete de música dos séculos XX e XXI. Em termos gerais, dedica-se ao estudo de como os performers, compositores e público praticam e teorizam a escuta como uma expressão de comunidade, sociabilidade e aliança política, com foco especial na improvisação, arte sonora e práticas de instalação. O seu livro, Listening in the Future Tense, examina o uso de fontes sonoras biológicas e ecológicas nos círculos musicais experimentais do final do século XX.

Cimini pesquisa, dá palestras e escreve sobre a obra de Maryanne Amacher. É autora de Wild Sound: Maryanne Amacher and the Tenses of Audible Life, um livro a ser publicado pela Oxford University Press.

Bill Dietz é compositor e escritor. Desde 2012, co-dirige a área de Música/Som do programa de mestrado do Bard College. O seu trabalho sobre a genealogia do concerto e a performance da audição levou-o a festivais como MaerzMusik e Donaueschinger Musiktage, museus como o Hamburger Bahnhof, Tate Modern e o Museo de Arte de Contemporáneo de Oaxaca, e publicações como Performance Research Journal, boundary 2 e o catálogo da Whitney Biennial de 2014. De 2016 a 2017, foi professor de Estudos de Som na Academy of Media Arts de Colónia. Em 2015, foi lançada uma monografia sobre seus Tutorial Diversions. Bill Dietz é membro fundador da Maryanne Amacher Foundation, criada com o objetivo de ampliar a compreensão do público sobre Amacher e o seu trabalho.

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Amy Cimini e Bill Dietz são membros do grupo de ex-colaboradores de Amacher reunido sobre o nome de Supreme Connections para se envolverem coletivamente nas questões da vida póstuma do trabalho que a artista desenvolvia especifica e adaptativamente aos lugares. São os editores do livro Maryanne Amacher: Selected Writings and Interviews, a primeira coleção de textos devotada a uma compositora cuja vida e obra são tão vastas quanto desconhecidas.

SISTERS WITH TRANSISTORS

Filme documentário de Lisa Rovner, 2020

Com Laurie Anderson como narradora,SISTERS WITH TRANSISTORS trata da história por contar das pioneiras da música eletrónica, compositoras notáveis que abraçaram as máquinas e as suas tecnologias libertadoras para transformar completamente a forma como hoje produzimos e ouvimos música.

A história das mulheres foi uma história de silêncio. Os protestos recentes reivindicando um maior reconhecimento das conquistas das mulheres estendem-se pela política, pelo mundo empresarial e até por Hollywood. O campo da música não é exceção. Clara Rockmore, Daphne Oram, Bebe Barron, Delia Derbyshire, Maryanne Amacher, Pauline Oliveros, Wendy Carlos, Eliane Radigue, Suzanne Ciani e Laurie Spiegel encontram-se entre os nomes dos maiores pioneiros do som moderno e a sua influência continua a ser sentida. No entanto, a maioria das pessoas nunca ouviu falar delas.

sisterswithtransistors.com

“PETRA” (1991), de Maryanne Amacher

MARIANNE SCHROEDER & JOANA GAMA (piano)

Movida por um encontro com a pianista Marianne Schroeder, Mayanne Amacher compôs Petra para os ICSM World Music Days em Boswil, na Suíça, transportando para o universo acústico as suas metodologias de trabalho para composições eletrónicas. A peça é um trabalho amplo e longo baseado nas impressões de Amacher sobre a igreja em Boswil e no conto com o mesmo nome do escritor de ficção científica Greg Bear, no qual gárgulas ganham vida e procriam com humanos numa Notre Dame pós-apocalíptica. Não existe partitura definitiva para Petra, mas sim uma série de fragmentos e notas de trabalho deixados para serem decifrados, recentemente expandidos por notas e partituras recém-descobertas do Maryanne Amacher Archive.

A peça foi originalmente estreada em 1991 por Schroeder e Amacher, mas raramente executada desde então. Um muito elogiado recente lançamento em LP de uma gravação da peça veio dar-lhe um novo fôlego. A estreia de Petra em Portugal conta com Marianne Schroeder e a jovem pianista portuguesa Joana Gama.

A pianista e compositora suíça Marianne Schroeder é, hoje, uma das principais intérpretes da nova música. Reputada especialista na música de Giacinto Scelsi, com quem estudou extensivamente, e membro do coletivo de compositores Groupe Lacroix, Schroeder colaborou por muitos anos com John Cage e estreou obras de Dieter Schnebel, Walter Zimmermann, Chris Newman, Hans Otte, Pauline Oliveros, Karlheinz Stockhausen e obras de Morton Feldman dos anos 1950, em locais tão importantes como o Carnegie Hall em Nova Iorque ou o Théâtre des Champs-Élysées em Paris. Gravou mais de trinta edições em disco, incluindo estreias de peças de Stockhausen, Anthony Braxton, Feldman e Scelsi, e gravou as sonatas completas para piano de Galina Ustvolskaya.

Joana Gama é uma jovem pianista portuguesa que se desdobra em múltiplos projetos quer a solo, quer em colaborações nas áreas do cinema, da dança, do teatro, da fotografia e da música. Para além dos recitais, o seu percurso tem incluído colaborações com Luís Fernandes, João Godinho, Rafael Toral, Drumming GP, Eduardo Brito, Tânia Carvalho, Victor Hugo Pontes, João Fiadeiro, João Botelho, Manuel Mozos ou Sopa de Pedra.

Em 2010, com Erik Satie, O Peripatético, iniciou uma série de projetos dedicados a Erik Satie onde se incluem vários concertos, discos e a coordenação da edição do livro Embryons desséchés.

A sua discografia está presente nas editoras Shhpuma, Room40, mpmp, Pianola, Grand Piano e Boca/Douda Correria.

“PERCEPTUAL GEOGRAPHIES”

THOMAS ANKERSMIT

Perceptual Geographies é um projeto solo ao vivo de Thomas Ankersmit para sintetizador Serge Modular, inspirado na pesquisa pioneira de – e dedicado a – Maryanne Amacher, que ele conheceu em 2000 no Bard College. Nestas performances, Ankersmit explora diferentes “modos” de escuta: não apenas que sons e quando são ouvidos, mas também como e onde os sons são experimentados (na sala, no corpo, dentro da cabeça, longe, perto). As chamadas emissões otoacústicas (sons que emanam de dentro da cabeça, gerados pelos próprios ouvidos) desempenham um papel importante. Amacher foi a primeira artista a explorar sistematicamente o uso musical desses fenómenos.

O título do projeto surge de um conhecido artigo publicado por Amacher em 1979, onde ela escreve sobre “múltiplos pontos de vista percetivos como resposta a eventos auditivos”. A estreia teve lugar no festival CTM em Berlim e na noite GRM no festival Sonic Acts em Amsterdão.

Thomas Ankersmit é um músico e compositor holandês sediado em Berlim. Desde 2006, o seu principal instrumento é o sintetizador analógico modular Serge. Fenómenos acústicos, como reverberações sonoras, vibrações infra-sónicas, emissões otacústicas e projeções altamente direcionais do som assumem um importante papel no seu trabalho assim como a utilização deliberadamente errada de equipamento.

Ankersmit mantém colaborações de longa duração com o minimalista norte-americano Phill Niblock e com o compositor italiano Valerio Tricoli. O seu trabalho foi apresentado em locais como Hamburger Bahnhof e KW, Berlim; Museu Stedelijk, Amsterdão; Kunsthalle, Basileia; MoMA PS1, Nova Iorque; e em festivais de música experimental e contemporânea em todo o mundo.

REMOTE LINKS

Apresentado por The New York Public Library, The Maryanne Amacher Foundation, Blank Forms e Fundação de Serralves.

Para comemorar a publicação de Maryanne Amacher: Selected Writings and Interviews, a editora, em cooperação com a New York Public Library e o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, apresenta Remote Links, um conjunto de eventos online.

Num esforço tanto para conceber a celebração de Amacher numa estrutura que aponta para a complexidade de seu trabalho e pensamento, como à luz das atuais limitações de encontro impostas pela pandemia, Remote Links oferece uma série de eventos online que destacam as possibilidades criativas da participação remota. Oito episódios semanais apresentam leituras de textos escritos selecionados e respostas ao livro a partir das perspetivas de artistas e teóricos convidados.

Também convidamos os membros do público a enviar perguntas que envolvam esses episódios e o livro de maneira mais ampla. Num painel de encerramento, os participantes remotos reúnem-se online e, em conjunto com os editores do livro Amy Cimini e Bill Dietz, refletem sobre os textos de Amacher e discutem as questões enviadas pelo público.

Para mais informações

Fernando Rodrigues Pereira

Telm.: (+ 351) 92 5409295 | Skype: fernandorodriguespereira | [email protected]