cancro do pâncreas

Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), liderada por Sónia Melo, descobriu que, em tumores pancreáticos, são as células estaminais cancerígenas que comunicam com as outras células do tumor através de vesículas extracelulares, dando-lhes ordens para que o tumor cresça, e resista à quimioterapia. O estudo, publicado esta terça-feira na revista Gut, demonstra também que impedindo esta comunicação entre as células, o tumor não cresce. Estes dados desvendam novas possibilidades terapêuticas para tratamento do cancro do pâncreas.

Ruivo CF, Bastos N, et al. Extracellular Vesicles from Pancreatic Cancer Stem Cells Lead an Intratumor Communication Network (EVNet) to fuel tumour progression. Gut, Epub ahead of print: [11 January 2022] doi:10.1136/ gutjnl‐2021‐324994

Os tumores pancreáticos são compostos por diferentes populações de células (células estaminais cancerígenas e células cancerígenas não estaminais) que comunicam entre si através da secreção de vesículas extracelulares (EVs). A equipa do i3S descobriu que nestes tumores existe uma rede de comunicação organizada e com uma hierarquia definida chamada EVNet. Os investigadores descobriram também que, «apesar de serem em muito menor número, são as células estaminais as que mais comunicam com as outras células. São elas, aliás, que comandam e transmitem as diretrizes para o tumor poder sobreviver.»

Perante isto, a equipa analisou em que consiste essa comunicação e verificou que, no interior das vesículas extracelulares (EVs) secretadas pelas células estaminais cancerígenas, existe uma proteína chamada Agrin e é esta proteína que, quando enviada às outras células, impulsiona o tumor a crescer e a vencer as adversidades, nomeadamente a quimioterapia.

Durante este trabalho, explica a investigadora Sónia Melo, «percebemos também que quando cortamos essa comunicação entre as células estaminais cancerígenas e as outras células cancerígenas impedimos o crescimento do tumor». Para isso, acrescenta, «utilizámos amostras de tumores pancreáticos de pacientes do Centro Hospitalar Universitário de S. João que foram introduzidos em ratinhos e, com recurso a moléculas que inibem a comunicação entre células, conseguimos travar a progressão do tumor». Adicionalmente, adianta a líder da equipa, «utilizámos anticorpos para bloquear a proteína Agrin e verificámos igualmente uma desaceleração no crescimento do tumor».

Estes resultados, sublinha Sónia Melo, indicam que estas duas opções – drogas para impedir a comunicação entre as células cancerígenas e anticorpos para bloquear a proteína Agrin – «apresentam potencial como soluções terapêuticas a aplicar pelos clínicos aos doentes com cancro do pâncreas com o objetivo de travar a progressão do tumor e minimizar a resistência terapêutica».

Em colaboração com os Hospitais da Luz e Beatriz Ângelo «analisámos o sangue de pacientes com cancro pancreático e verificámos que os que apresentam maior número de vesículas extracelulares positivas para a proteína Agrin em circulação no sangue têm um risco três vezes maior de progressão da doença». Isto significa, adianta a investigadora, que «as EVs agrin-positivas circulantes são potenciais biomarcadores para determinar a resposta à terapia e o risco de progressão do tumor pancreático».

A investigadora sublinha que este trabalho decorreu em parte no âmbito do Porto Comprehensive Cancer Center e reflete uma das suas principais linhas de ação: o desenvolvimento de investigação pré-clínica para acelerar ensaios clínicos de fase inicial impulsionados por investigadores.

Sobre o cancro do pâncreas:

O cancro do pâncreas é uma doença silenciosa, geralmente detetada em estadios avançados. É um dos cancros mais letais, com uma taxa de sobrevida aos 5 anos inferior a 10%, ou seja, em 100 pessoas diagnosticadas com cancro do pâncreas, menos de 10 estarão vivas passados 5 anos. Em Portugal, surgem anualmente cerca de 1800 casos e as estimativas sugerem que, em 2030, o cancro do pâncreas seja a segunda causa de morte por cancro.

Estes tumores são geralmente resistentes à quimioterapia e ainda não existem outras opções terapêuticas eficazes para estes pacientes. Conhecer a biologia destes tumores é, por isso, fundamental para encontrar novos alvos terapêuticos que permitam melhorar a qualidade de vida destes pacientes.

Para mais informações

Luísa Melo

[email protected]

FONTEi3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde
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