As tendências atuais das mudanças climáticas poderão colocar em risco mais de 50% do habitat de corais de águas frias do Atlântico Norte, enquanto o habitat disponível para peixes de profundidade com interesse comercial poderá mudar até 1000 km para norte. Estas projeções podem afetar significativamente o setor pesqueiro e as comunidades que dependem dessas espécies.

O trabalho, publicado na revista científica internacional Global Change Biology, foi desenvolvido no âmbito dos projetos de financiamento europeu ATLAS e SponGES, cujo objetivo é melhorar o conhecimento dos ecossistemas do mar profundo do Atlântico Norte e apoiar o desenvolvimento de políticas de gestão para o uso sustentável dos oceanos. O modelo usa novas projeções das propriedades da água do Atlântico profundo e a maior compilação de dados de ocorrência de espécies para, pela primeira vez, delimitar as áreas de perda ou ganho de habitat no futuro e identificar as áreas de refúgio climático dessas espécies.

Telmo Morato, do IMAR e Okeanos da Universidade dos Açores e líder do trabalho que conta com 58 investigadores de todo o mundo, comenta:

 “As projeções dos nossos modelos são claras e apontam para uma diminuição significativa do habitat disponível para corais de águas frias e um acentuada deslocação do habitat de peixes de profundidade para norte. Este estudo aumenta as crescentes evidências científicas de que as mudanças climáticas estão a ter efeitos negativos na fauna do oceano profundo. Apesar dos significativos avanços científicos, apenas agora estamos a começar a desvendar os mistérios do mar profundo. Se não tomarmos medidas drásticas para reduzir a nossa pegada ecológica, poderemos perder partes significativas destes ecossistemas, mesmo antes de os conhecermos e de os apreciarmos.

Alterações no Atlântico Norte podem interferir na forma como regula o clima global

O oceano desempenha um papel crucial na regulação climática global através da captação e armazenamento de calor e dióxido de carbono. No entanto, essa capacidade não é infinita e tem consequências para a saúde do oceano, incluindo o aumento da temperatura da água, a acidificação do oceano, a desoxigenação ou a diminuição da disponibilidade de alimentos que chegam ao fundo. Estas mudanças globais colocam em risco os serviços ecossistémicos prestados pelo oceano, como evidenciado neste trabalho que utiliza as projeções com base em cenários futuros de emissões atuais constantes de dióxido de carbono para a atmosfera.

Marina Carreiro Silva, também do IMAR e Okeanos da Universidade dos Açores, alerta:

as alterações climáticas são a maior ameaça ambiental do seculo XXI, com consequências desastrosas para os ecossistemas marinhos, como a perda de habitat e biodiversidade até mesmo no oceano profundo, se as emissões de dióxido de carbono não forem controladas.

O estudo focou-se especialmente em corais duros e em gorgónias, que são indicadores de ecossistemas marinhos vulneráveis e em espécies de peixes de profundidade, que são comercialmente importantes para várias regiões do Atlântico Norte. Verificou-se que as espécies de gorgónias estão sob uma ameaça particularmente elevada, com os modelos a projetarem uma perda de habitat que poderá levar à extinção de algumas espécies em vastas regiões do Atlântico. O estudo projeta ainda que as zonas de refúgio climático para os corais de águas frias serão muito limitadas, ressaltando a necessidade de considerar as alterações climáticas no desenvolvimento de políticas de gestão e conservação do oceano profundo.

Comentando a importância dos resultados agora publicados, o Professor J Murray Roberts, coordenador do projeto ATLAS pela Universidade de Edimburgo, acrescenta:

Estamos num importante ponto de viragem para a sobrevivência dos corais de águas frias. No próximo século, iremos observar que grandes áreas do Atlântico se tornam inadequadas para o crescimento destas espécies. Os corais são os arquitetos do oceano e, sem eles, inúmeras outras espécies irão também perder o seu habitat. As mudanças que prevemos neste estudo são causadas pelas alterações climáticas globais. Devemos fazer todo o possível para limitar as emissões de dióxido de carbono e conservar cuidadosamente as áreas do Atlântico que se tornam refúgios climáticos.

Os autores do estudo referem que as consequências projetadas baseiam-se em cenários futuros de emissões de carbono ao ritmo atual e não consideram possíveis medidas de mitigação climática. No entanto, os resultados agora divulgados enfatizam a necessidade de melhor compreender os efeitos das alterações climáticas no oceano e destacam a importância de preservar os refúgios climáticos.

Os investigadores do projeto ATLAS esperam que as projeções sejam consideradas em futuras políticas de conservação e gestão a nível global, nomeadamente no que diz respeito à conservação de ecossistemas marinhos vulneráveis. Essas medidas poderão contribuir para o enorme desafio de reduzir os devastadores efeitos das alterações climáticas, como aqueles projetados neste trabalho.

Telmo Morato conclui que:

as nações litorais, Portugal e os Açores em particular, deverão desenvolver estratégias de longo prazo para o avanço do conhecimento sobre o mar profundo a fim de contribuir com informação científica para o desenvolvimento de políticas de promoção do uso sustentável do mar profundo em cenários de alterações globais. Estas estratégias devem traduzir-se num claro esforço para dotar o país e as regiões autónomas com infraestruturas, meios tecnológicos adequados, e quadros científicos adequados.

Para mais informações:

Telmo Mourato | Projecto ATLAS, Okeanos Universidade dos Açores | [email protected]

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