
O crescimento acelerado da disseminação e consumo de músicas criadas exclusivamente por Inteligência Artificial, através de mecanismos de streaming fraudulento, preocupa a Audiogest, que alerta que este fenómeno está já a desviar receitas significativas de artistas, autores e produtores musicais, ameaçando a sustentabilidade do mercado musical. Isto numa altura em que dados divulgados pela Deezer, plataforma de streaming, apontam para um número superior a 40 por cento de músicas criadas por IA (mais de 75.000), entre todas os títulos carregados diariamente naquela plataforma, um volume sem precedentes que está a amplificar o risco de manipulação do sistema.
Num mercado onde o digital representa a principal fonte de receitas da música, a manipulação artificial de reproduções deixou de ser marginal para se tornar um problema estrutural. A fraude no streaming é por isso, cada vez, um desvio económico direto, que retira rendimentos a quem cria e investe, distorce a concorrência e compromete a diversidade cultural.
“Estamos perante um desvio direto de valor. A fraude no streaming está a retirar rendimentos a quem cria, produz e investe na música, e a minar a confiança no mercado digital. Combater este fenómeno é hoje uma prioridade estrutural”, afirma Miguel Carretas, diretor-geral da Audiogest, lembrando que o Dia Mundial da Propriedade Intelectual se assinalou domingo.
O fenómeno opera muitas vezes de forma invisível: conteúdos e músicas criadas por IA, frequentemente, são distribuídos em larga escala e promovidos através de redes automatizadas de “bots” que inflacionam reproduções. O resultado é a apropriação indevida de receitas que deveriam remunerar criadores legítimos.
Este risco está a crescer rapidamente com a evolução da Inteligência Artificial generativa, que permite produzir música em escala industrial e automatizar esquemas fraudulentos com maior sofisticação e menor custo.
Os números confirmam a dimensão do problema. Há dias, a Deezer verificou o carregamento diário de mais de 75.000 faixas geradas por IA — cerca de 44 por cento de todo o conteúdo carregado, um crescimento significativo face aos 10 por cento registados no início de 2025. O mesmo operador indicou ter identificado mais de 13,4 milhões de faixas deste tipo ao longo do último ano. Por sua vez, a Spotify revelou ter removido mais de 75 milhões de faixas consideradas fraudulentas ou “spam” num período de 12 meses.
Casos concretos evidenciam também o impacto económico direto. Nos Estados Unidos, um esquema baseado na criação de centenas de milhares de músicas criadas por IA, na utilização de mais de 10.000 contas falsas e na geração de milhares de milhões de reproduções artificiais, resultou em mais de 8 milhões de dólares em royalties indevidamente obtidos.
Associação acompanha de perto a evolução do mercado digital e a problemática das músicas criadas por IA
Perante este contexto, a Audiogest, enquanto entidade que representa os produtores fonográficos em Portugal, sublinha a necessidade de proteger o valor da música gravada, assegurar uma distribuição justa das receitas e reforçar a confiança no mercado digital.
A associação acompanha de perto a evolução do mercado digital e colabora com entidades nacionais e internacionais na defesa de boas práticas, transparência e responsabilização ao longo de toda a cadeia de valor. Neste âmbito, associa-se às preocupações expressas pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) e reforça a necessidade de uma resposta coordenada entre todos os intervenientes do setor.
Entre as medidas prioritárias destacam-se o reforço dos mecanismos de verificação de identidade de utilizadores e fornecedores de conteúdo, a avaliação rigorosa da legitimidade das obras antes da sua disponibilização, a utilização avançada de dados para deteção de padrões anómalos e a criação de mecanismos eficazes de partilha de informação entre plataformas, distribuidores e restantes agentes.
Para a Audiogest, a resposta à fraude no streaming deve ser estrutural, contínua e adaptativa, acompanhando a evolução tecnológica e garantindo que os sistemas de remuneração refletem de forma fidedigna o consumo real de música.
Num contexto de transformação digital acelerada, é fundamental assegurar que a inovação tecnológica não compromete os direitos dos criadores nem desvirtua os modelos de negócio que sustentam o setor. Proteger a música gravada é proteger um ecossistema criativo, económico e cultural que depende da confiança, da transparência e da justa remuneração.
A Audiogest continuará a desempenhar um papel ativo na defesa destes princípios, contribuindo para um mercado digital mais justo, sustentável e alinhado com os interesses de quem cria e investe na música.
Sobre a Audiogest:
A AUDIOGEST – Associação para a Gestão e Distribuição de Direitos é uma associação de utilidade pública legalmente constituída, em 2002, como Entidade de Gestão Coletiva de Direitos dos Produtores Fonográficos, representando também através da AUDIOGEST – Associação para a Promoção da Música – os direitos e interesses da Indústria da Edição Musical em Portugal. Representa, em Portugal, os produtores fonográficos nacionais e estrangeiros, desde os projetos individuais de artistas autoeditados, até às multinacionais da edição.
Para mais informações entre em contacto com:
Sandra Silva | Margarida Bravo
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