Há algo no subsolo, longe da luz da superfície, que nos atrai e nos faz ter vontade de desafiar o que ainda hoje é desconhecido e desconfortável. E assim foi na ilha do Pico – onde, graças ao programa do Montanha Pico Festival (um festival de artes criado e produzido pela MiratecArts, em parceria com a Secretaria do Mountain Partnership das Nações Unidas), Luís Senra visitou, com o seu saxofone, várias cavidades vulcânicas da montanha mais alta de Portugal. O objetivo: criar uma performance em tempo real nas grutas.

As incursões foram um enorme desafio à criatividade. Porque desprovidas das condições perfeitas que um palco normal dispõe e, também, com uma sempre imprevisível acústica. O foco foi simplesmente a liberdade criativa como meio de exploração do som e da conexão direta com o público e a natureza.

Mas a motivação foi bastante para, todos os sábados de manhã, durante o mês de Janeiro, a equipa da MiratecArts, liderada pelo Parque Natural da ilha do Pico (Açores), seguir rumo ora a uma gruta, ora a uma furna, na ilha-montanha, para uma experiência sonora única e irrepetível.

A essência da ilha do Pico é… a nossa

Descer às cavidades vulcânicas é descer fundo em direcção à nossa essência: a possibilidade de nos ligarmos de forma profunda e genuína com a natureza – e todos os seus elementos -, e de entender que somos parte daquele todo, sem ego; a percepção dos contrastes e dos equilíbrios entre luz e escuridão, da força e fragilidade do silêncio e das potencialidades do som; a adaptação às possibilidades e a cada desafio encontrado, longe de qualquer zona de conforto, fazendo de cada novo elemento uma nova oportunidade de interação, confrontação e criação.

Foi, enfim, deixar a natureza começar o seu incrível espetáculo, permitir que o som entrasse, dançasse entre o todo e que fluísse instintivamente… E saber que foi e é perfeito tal como é!

Eis o que ficou do que (se) passou, em quatro atos…

A Gruta da Agostinha

Andar pela Gruta da Agostinha foi como andar por uma imponente e ancestral cidade subterrânea, em plena ilha do Pico, feita de largos e altos túneis, diferentes aberturas e possibilidades de caminhos. Com vestígios de carvão e barro pertencentes a quem lá ia desesperadamente colectar água. No fundo, um autêntico anfiteatro natural onde foi possível apreciar um “já raro” público em absoluto silêncio e um “coro” de gotas de água que resultou numa melodia confortante e gentil. Se bem que sempre embrulhada em audíveis sopros de ar quente, que ligou a “luz” no meio de toda aquela “escuridão”.

A Furna Vermelha

A Furna Vermelha deu resistência à sua entrada com um labirinto de fetos de fortes verdes, um piso enlameado que engolia tudo, uma descida vertical em escalada e tapetes de velha lava vermelha.

A “luz de palco” vinha de uma abertura superior e tornou-se num enorme desconforto – ou não estivéssemos nós no subsolo -, resultando em linhas sonoras graves e cheias, embora desconexas, intercaladas de imponentes harmónicos e sons sobrepostos que se “atropelavam” na ânsia de sair em direção à luz.

A Furna de Frei Matias

A Furna de Frei Matias materializou o equilíbrio entre luz e escuridão, em pleno subsolo da ilha do Pico.

É um escuro túnel de lava atravessado por poços de luz – que proporcionou a criação de um habitat para várias plantas -, envolto no mistério da lenda de um eremita que ali se terá refugiado e vivido em absoluta solidão (mas que a mim trouxe uma companheira que abriu a porta para os sonhos com a sua taça tibetana).

No interior chovia tanto ou mais do que lá fora. E toda a tensão à volta do mundo terminara ali, naquele “coral” de gotas que puxavam a atenção para o agora e para um sentimento de carinho e benção da natureza.

Tudo parecia leve – talvez com a ajuda de uma corrente de ar que atravessava todo o tubo lávico, que passava por nós e tudo levava – e o simples respirar a base de tudo, originando simples e fluídas melodias que balançavam e desapareciam com o vento.

A Gruta do Furtado

A Gruta do Furtado, por sua vez, facultou-nos acesso através de um buraco estreito, de descida quase vertical em direcção às entranhas da ilha do Pico.

Apresenta um impressionante túnel lávico, com uma confortante ausência de luz e um silêncio da cor das suas paredes, revestidas de milhares de bactérias douradas.

Deste subsolo da ilha do Pico, o som surgiu em constante clímax de vozes e gemidos misturados com notas ruidosas e ásperas de harmónicos e vocalizes, sempre em crescendo e em direção a um abrupto silêncio profundo… culminando numa melodia aconchegante, e que embalava.

O público chamou-lhe de parto e renascimento, mas sobre isso nada sei. O que apenas sei é que a natureza resgatou-me, envolveu-me e puxou-me para si.

Nota biográfica do saxofonista da ilha do Pico

Luís Senra é um saxofonista e free improviser micaelense, natural de Rabo de Peixe, que tem como essência explorar e desenvolver performances onde o foco principal é a liberdade criativa, como meio de exploração do som e da conexão direta com o público e a natureza.

Desde 2017, tem-se assumido como performer em projetos como o “O Silêncio da Montanha”, uma subida ao ponto mais alto de Portugal, para uma desempenho integrado na programação do Montanha Pico Festival.

Marcou igualmente presença no MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, e nas programações do Serralves em Festa, evento maior da cultura contemporânea em Portugal e um dos maiores da Europa, e do Azores Fringe Festival, o maior festival internacional de artes dos Açores para o mundo, que decorreu na ilha do Pico.

Em 2018, Luís Senra passou uma temporada na Comunidade Valenciana, em Espanha, onde esteve presente na programação de Improv Acción, micro festival de improvisação livre, que teve lugar na cidade de Llíria.

Colaborou também com o Col-lectiu PenJa’m, um projeto multidisciplinar que junta a improvisação eletroacústica, dança e elementos audiovisuais através de improvisações coletivas, na cidade de Valência.

Já depois de regressado aos Açores, integrou o BRUMA Project, um projeto de confluência atlântica que une a música açoriana às sonoridades jazzísticas, à novidade da experimentação e ao fluir criativo da improvisação, para a tour de lançamento do seu álbum de estreia.

Em 2019 deu o arranque do Ciclo Performativo “Geometria Sónica”, promovido pelo Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, e com curadoria dos programadores do Festival Tremor, e participou no albuns “Cowboy Microwave Music”, do new-world crooner de Pittsburgh, Pensilvânia, Elliot Sheddy, e “Prima Pratica”, da Creative Sources Recordings, com os músicos Ernesto Rodrigues, Gianna de Toni, Biagio Verdolini e Luis Couto

Já neste ano de 2020 esteve em residência durante o mês de janeiro na ilha do Pico, para explorações sonoras e performances em cavidades vulcânicas na montanha mais alta de Portugal, integrando a programação do Montanha Pico Festival.

Informações adicionais:

Luis Senra

[email protected]

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