PAREDES DE COURA (PRESSPOINT/ECCLESIA/JOSÉ CARLOS PATRÍCIO) - A banda queria ter um “nome forte”, que traduzisse a mensagem que desejavam transmitir às pessoas. Algo com alma, com vida, algo que os animasse a eles e aos outros, com Cristo. E assim nasceram os “Anima Christi”. Esta banda de Alenquer é uma das participantes no Festival Jota que arranca dia 23 . É a segunda vez que o grupo de música cristã “Pop-Rock” participa no certame, depois de ter feito parte do cartaz de 2007. Em entrevista ao site oficial do Festival, Nuno Pato, um dos fundadores da banda, explica que o projecto que norteia os “Anima Christi” é, em primeiro lugar, “fazer chegar a nossa fé àqueles que, através da música, estão dispostos a acolher Cristo nos seus corações”. Temos de recuar até à década de 90 para encontrarmos as raízes do projecto. Ele partiu do arranjo de temas originais para a participação em festivais cristãos da canção, organizados pela Vigararia de Alenquer. Um dos temas chegou mesmo a ganhar o primeiro lugar no Festival Nacional, em Fátima, no ano de 1998. “Eu e o Luís Pintas fizemos parte, durante 10 anos, de uma banda intitulada Kabu, e entre outras coisas fizemos animação em diversos festivais vicariais”, explica Nuno Pato. E seria também a animação de um festival que iria estar na origem do grupo actual. “Um dia, em Março de 2006, perguntaram-me se podia fazer a animação da 2ª parte do Festival Vicarial de Loures. Eu disse que sim, mas não tinha banda”, recorda Nuno Pato. Mas tudo se resolveu e a ele se juntaram mais 5 elementos, que de concerto em concerto, foram consolidando um projecto que “terminará quando Deus quiser”, adianta ainda o mesmo responsável. O primeiro trabalho dos “Anima Christi” saiu em Abril deste ano, em formato livro-cd. Três dos seus temas vão fazer parte de um manual escolar multimédia, para a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica. É uma obra que “quis sair do padrão a que se está habituado”, revela Nuno Pato. Contou com a colaboração de um conjunto de sacerdotes, convidados a compilar um livro que desse “outro ênfase aos poemas das músicas, às passagens bíblicas que as suportam”. “És capaz”, “Inunda” e “É tempo de amar”, são algumas das faixas musicais presentes na compilação. Os “Anima Christi” actuam no palco Jota dia 24, às 21 horas – deles se podem esperar muita alegria e animação, num registo pop acústico. O Festival Jota realiza-se de 23 a 25 deste mês, em Paredes de Coura – a 7ª edição deste certame de música crista tem este ano a organização a cargo do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil de Viana do Castelo.
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Paredes de Coura: Os “Anima Christi” ou o pop-rock com alma cristã
Terça-feira, 20 de Julho, 2010Famalicão: Plataforma de Resistência Nacional reforça aposta na liberdade da escola e da família
Segunda-feira, 19 de Julho, 2010FAMALICÃO (PRESSPOINT) – A Plataforma de Resistência Nacional (PDRN) surgiu no ano passado numa luta contra a chamada lei da eucação sexual nas escolas. A lei acabou mesmo por ser aprovada. Mas a PDRN considerou que deveria continuar a lutar pelos seus propósitos. Artur Mesuita Guimarães é o rosto mais visível desta entidade. E, em breves declarações à Presspoint, explica o que a PDRN continua a fazer
Presspoint (P) – Aparentemente, e para a generalidade dos cidadãos, parece que a Plataforma de Resistência Nacional (PDRN) apareceu para se opor à consagração da lei da sexualidade nas escolas. Mesmo com a sua luta, a PDRN não alcançou os seus desideratos. Porque se manteve a PDRN?
Artur Mesquita Guimarães (AMR) – É verdade, de facto a PDRN foi constituída com o propósito de se opor ao projecto-lei 600/X, numa fase inicial, e porque não foram alcançados os seus desideratos, agora opõe-se à ditatorial Lei 60/2009 que impõe a inclusão obrigatória da “educação sexual” nos projectos educativos das escolas. É natural que assim seja!
P – Depois da aprovação da lei contra a qual a PDRN se bateu, os propósitos da PDRN não se esgotaram?
AMG – Nós entendemos que não. Nesta matéria os nossos propósitos, tal como noutras horas grandes da História, só se esgotarão quando for restituída a liberdade às escolas e às famílias.
P – Quais as acções que, após a aprovação da lei, a PDRN tem levado a cabo?
AMG – São inúmeras as acções que a PDRN tem levado a cabo, o que seria de certa forma exaustivo enumerar todas aqui e agora, até porque podem ser consultadas no nosso site www.plataforma-rn.com (em anexo movimento do site). Mas gostaria de destacar as perguntas que colocamos recentemente às escolas sobre uma notícia vinda a público da compra de Kits à APF, por parte de 1100 escolas, acção esta que ainda está em curso.
P – Quais os ecos que tem recebido das entidades a quem se tem dirigido?
AMG – Diria que constatamos uma generalizada falta de sentido e responsabilidade democrática. Explico melhor, aguardamos há mais de 288 dias a resposta a um pedido de audiência aos ex-presidentes da república, assim como ficamos sem resposta a uma carta aberta que endereçamos ao actual candidato à Presidência da República Manuel Alegre. Poderia enunciar muitos outros casos!..
P – Não se nota, aparentemente, muita acção mediática por parte da PDRN. Qual é a estratégia adoptada?
AMG – A estratégia é a de mobilizar a sociedade em geral para a questão. Para o efeito lideramos a agenda sobre o assunto e desencadeamos acções diversas em conformidade. Já foram dadas muitas oportunidades à comunicação social. Na maior parte dos casos somos procurados pelos jornalistas, mas depois as noticias não aparecem!
P – Qual tem sido a receptividade dos cidadãos às ideias da PDRN? E por parte das entidades responsáveis dos estabelecimentos de ensino?
AMG – Ao fim de um ano de actividade a PDRN conta já com mais de 800 cidadãos que a apoiam, na sua maior parte pais com filhos em idade escolar. A afluência ao site da PDRN é diária, com picos quando da emissão de newsletter e tem visitas de todos os continentes. Quanto aos estabelecimentos de ensino, aguardamos serenamente que nos respondam às perguntas que colocámos, assunto que já falámos acima.
P – A PDRN é uma entidade que se esgotará quando alcançar os objectivos a que se propôs?
AMG – Provavelmente.
Braga: Santos populares são marca civilacional
Quarta-feira, 23 de Junho, 2010BRAGA (PRESSPOINT/ECCLESIA) – Micael Pereira, professor de Sociologia da Universidade Católica Portuguesa, olha para as festas populares, entre a religiosidade popular e o paganismo, como uma marca civilizacional
Ecclesia – Falamos de festas populares… Até que ponto esta quebra na rotina dos cidadãos acaba por ser um contributo psicologicamente salutar e que favorece uma vida social mais saudável?
Micael Pereira – As festas populares, e sobretudo as que estão associadas a uma religião popular, têm uma função civilizacional grande. Inicialmente pelo aspecto do tempo, não só pelo dia. A festa ritma um tempo extremamente mais largo, na medida que é esperada por muitos, por variadíssimas razões, umas mais do que outras. Ela marca, por isso, um tempo anterior. Há depois a celebração em si que é a ruptura propriamente dita e depois a festa continua, pois ela não acaba naquele dia. Prolongam-se por vezes para comer os restos ou porque a família fica mais uns dias, por uma quantidade enorme de “acidentes” positivos e negativos que ocorrem durante a festa. Efectivamente seria normal que nós, sem vivermos em festa, mas que de algum modo andássemos de festa em festa havendo tempo comum pelo meio. Eu julgo que isto existe na liturgia e lá tem a sua terminologia própria mas existia ainda mais na religião popular, porque ela estende-se pelo ano inteiro – o tempo litúrgico, o tempo das festas dos santos, as chamadas festão de Verão. A pura dispersão da festa, são as festas análogas que cada um considera diferentes mas que são identitárias para si e que nos permitem sair da monotonia de duas coisas. Uma é a monotonia do tempo actual: nós andamos com um tempo de relógio, que podemos dizer que é discreto, que é igual a todos os dias… Mas muito pobre, porque todo somado é minutado! Para se defender disso há quem faça a festa banalizada. A vantagem da festa popular é precisamente ela criar uma referência para muita gente que, de tempos a tempos, quebra a vida de todos os dias. Permite, portanto, criar ritmos biológicos porque a variedade dos tempos, a variedade das festas, cada uma com o seu enredo, cada uma com a sua ritualização. Isso faz com que haja uma variedade e uma evocação até de mito e de referências ao longo de um tempo enorme.
E – Podemos falar de uma certa liberdade celebrativa na forma de celebrar o santo, além da procissão há os tronos, as sardinhas, os casamentos e o povo encontra ritmos à parte da celebração tradicional…
MP – Houve um tempo em que “era muito bem” contrastar a festa litúrgica e a festa deste tempo. Contudo eu penso que há aspectos em que efectivamente se encontra uma oposição e outros em que há uma continuidade. Considero que é tradição popular as pessoas em Fátima andarem de joelhos pelo chão, o que não significa que não esteja integrado. Eu não contrastaria só o eclesiástico com o popular, porque apesar de por vezes existirem divergências entre o clero e o povo, ao fim de um certo tempo acabam por se entender. No fundo o clero gosta de ser popular e as pessoas acabavam por ouvir o sermão.
E – E a Igreja aproveita o que há de bom na tradição popular e assim chega ao povo.
MP – Exacto e a Igreja chamou tradições romanas no passado tanto para a liturgia como para a religião popular. Concerteza que há uma liberdade celebrativa e isso é positivo porque há maior criatividade, permitindo uma adaptação maior das pessoas ao que estão a celebrar. Permite também reunir mais pessoas, permite ainda confundir. Por exemplo, Santo António hoje é muito mais António do que santo. Por outro lado os casamentos hoje são terrivelmente ambíguos. Foi uma maneira de casar algumas pessoas quase que “à força”, ajudar os que não casariam pela Igreja de outra maneira e agora até incluem os casamentos civis. No entanto, a sardinha e o manjerico não baralha a jogada porque o engraçado é perceber um conjunto muito grande de simbologias que transformam a festa num fenómeno global. No fundo uma festa popular é qualquer coisa que por um lado se dança, se come, se bebe, se cheira e se convive, onde se ouve, se passeia, se ri, se compra, se trabalha, se chora, se reza. É um fenómeno global que toca em imensas coisas e que por qualquer pormenor se tem a festa toda. E é aí que me parece que tem o encanto, não por ser popular, mas por ser criativo e tem uma criatividade que nasce de uma pluralidade muito grande de autores, que convergem num mesmo ideal, numa fantasia que ultrapassa o tempo. O que é complicado é como é que hoje a Igreja consegue ser poética, ter pessoas eclesiais suficientemente poéticas para carregar, umas vezes de arame outras de lirismo, novos símbolos para recontar a história numa linguagem de hoje, para as adaptar ao que precisamos. No fundo a festa faz o apelo ao artista e ao poeta na Igreja. Um exemplo extremamente concreto foi Manoel de Oliveira, por ocasião da visita de Bento XVI, ter falado em “ter saudades do paraíso”. Foi o despertar de um poeta, não de versos.
E – Há uma realidade que salta à vista que é o reforço da identidade do bairro, do grupo. Há uma reafirmação destes pequenos grupos que habitam a cidade quase numa luta e no sentido de evitarem ser diluídos num cinzentismo urbano que classifica todos da mesma maneira?
MP – Isso é muito claro nas marchas de Sto. António em Lisboa, que reforça a identidade dos bairros e os despique entre eles, numa identidade para a vida inteira. Concerteza que as rusgas no Porto, do São João, até são mais populares e democráticas mas não têm a força identitária que as marchas têm em Lisboa. Mas julgo que podemos ir mais longe. O problema não é só a identidade do bairro mas é a necessidade de ter uma terra. As designadas festas da nossa terra, dão-nos uma terra e manifesta-se orgulho nela, porque é na festa que se mostra o que há de bom e a festa marca. É um problema para as cidades, muitas vezes estão mal construídas, têm um urbanismo péssimo, têm uma vida desorganizada e pouco comunitária. O conseguir fazer festa, na cidade toda ou em diversos locais, é uma coisa simples deixa uma herança territorial às crianças para além da terra dos pais ou dos avós, porque eles precisam de ter uma terra deles. É muito difícil, em especial nas cidades grandes, ter gosto nas cidades porque a festa também pode ter esta função tremenda de nos dar uma terra, uma origem… Precisamos de estar agarrados a alguma coisa, não somos só cidadãos do Mundo. É mais uma das funções civilizacionais da religião popular e da festa.
E – É recorrente ver os jovens agarrarem estas tradições que vêm dos pais e dos avós, carregando o simbolismo da tradição ou devemos temer o desaparecimento destas festividades?
MP – Eu tenho muitas dúvidas que venha a desaparecer algum dia. O Santo António perdeu o seu cariz cristão porque há outro tipo de festa. Começa à tardinha e estende-se pela noite dentro, com a gente nova que anda pelos bairros. Não me parece que as festas estejam a viver dos mais velhos, claro que o problema é o sentido que a festa tem. Sem as manipular conseguir acrescentar sentido, fazer com a gente nova continue a gostar e abrir novos horizontes para cada festa. Alem da poesia tem de entrar o humor. É preciso olhar para as coisas com à vontade e criatividade. Foi sempre assim que se fez. A religião popular é da população e também é uma resposta à população. É algo intermediário e é com essa boa disposição que se vive nas festas que deveríamos conseguir viver.
Braga: D. Jorge Ortiga analisa “uma década com muitas mudanças” na Igreja portuguesa
Domingo, 25 de Abril, 2010
BRAGA (PRESSPOINT/ECCLESIA/PAULO ROCHA) – A poucas semanas da visita do Papa a Portugal, D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), admite que a Igreja Católica já não é uma “força maioritária”. Para o arcebispo de Braga, ela tem de situar-se num contexto de adversidades e contratempos, porque nem tudo facilita o encontro com a própria fé. Em declarações à Agência ECCLESIA, D. Jorge Ortiga defende que o confronto com uma mentalidade nova deve levar a Igreja a repensar-se, sem abdicar dos seus princípios fundamentais.
Agência Ecclesia – Na primeira década do 3.º milénio, descobre mudanças significativas na sociedade portuguesa, nomeadamente relacionadas com a presença da Igreja Católica?
D. Jorge Ortiga – Sem dúvida! Fruto da globalização, o secularismo invadiu os circuitos da sociedade. Com ele o relativismo impôs-se. E a Igreja Católica já não é uma força maioritária. Ela tem de situar-se também num contexto de adversidades e contratempos porque nem tudo facilita o encontro com a própria fé. Por outro lado, fruto dessa globalização e da integração na União Europeia, a situação económica transformou muitos hábitos e comportamentos: gerou um consumismo desenfreado por parte de alguns e uma desigualdade crescente. Quer a sociedade quer a Igreja estão situadas num contexto totalmente diferente.
AE – Cresceu uma pressão social sobre questões fracturantes que motivou um desfecho diferente do esperado pela Igreja Católica?
JO – Por temperamento sou optimista e olho para a História com os olhos da fé. Creio que estamos a viver a Graça do Concílio Vaticano II [1962-1965], que integrou a Igreja na sociedade, alertando-a para a necessária inculturação. A Igreja confronta-se como nunca com uma mentalidade nova.
AE – Nesta década?
JO – Sim, essencialmente. O que obriga a Igreja a repensar. Não a sua moral e os seus princípios fundamentais. Antes a reinterpretá-los, mantendo a sua identidade e a sua especificidade e encontrando novas respostas através do diálogo e conhecimento multidisciplinar. O que é desafiante para a Igreja! A fé faz-nos compreender que esses problemas fracturantes (nos) interpelam-nos e (nos) questionam-nos, não para procurar uma nova moral, mas para fazer com que a moral católica de sempre, nos seus valores essenciais, possa ser defendida e praticada sem cedências.
AE – Mas qualquer mudança no campo da moral poderá soar sempre a uma cedência…
JO – Como disse, a Igreja sente-se cada vez mais interpelada, sobretudo desde o Concílio Vaticano II, por tudo o que acontece na sociedade actual.
AE – Mas isso quer dizer que a Igreja tem de mudar?
JO – Não se trata de cedências (quero sublinhar isto porque a Igreja tem de ser fiel à doutrina de sempre, tem de sublinhar a sua diferença). Mas por causa do Concílio Vaticano II e de uma mudança cultural que aconteceu tão rapidamente, e ao contrário de um dogmatismo que havia antes, a Igreja, sendo fiel à doutrina, terá de alterar o modo de a comunicar e anunciar.
AE – De a viver também?
JO – Consequentemente! Por exemplo, no que respeita à sexualidade, a Igreja tem de reformular a sua linguagem. Não tenho dúvida absolutamente nenhuma. A Igreja terá de partir de um conceito mais positivo, de uma teologia do próprio corpo. Há um caminho a percorrer, que não caracterizo de cedência mas de adaptação da linguagem, em consonância com dados da ciência que hoje nos são oferecidos.
AE – Há questões concretas que se podem colocar neste âmbito, como a inclusão nos sacramentos dos casais “recasados”…
JO – Eles podem frequentar a vida religiosa, nos actos de culto, como qualquer outra pessoa. O que lhes é vedado é poder aceder à comunhão, significando que não estão em plena comunhão com a Igreja. Penso que, porventura, para os casos onde não se chegue à nulidade do casamento – o caminho que a Igreja aconselha – pode chegar-se a uma outra medida para um acolhimento mais concreto da sua situação. É um campo onde teremos de reflectir, deixando-nos conduzir pelo Espírito, sem cedências àquilo que é a doutrina.
AE – Uma questão, de debate recente, é o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Que desafios coloca?
JO – A Igreja dirá sempre que o casamento é uma união entre um homem e uma mulher, alicerçada no amor (ao contrário do passado, a Igreja sublinha hoje o amor como a dimensão essencial do casamento) e orientada para a procriação responsável. Sem nunca ceder a novas tendências, a Igreja é desafiada a compreender, a acompanhar, a ajudar, a saber estar com essas uniões que possam vir a acontecer.
AE – Que comentário lhe merece o facto do processo legislativo em curso sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo poder concluir-se no contexto da visita do Papa a Portugal?
JO – É um dado adquirido que isso vai acontecer. O que não faz com que a Igreja mude a sua maneira de pensar. Pastoralmente, a Igreja tem de ver como vai relacionar-se com essas pessoas. É uma coincidência como tantas outras, que não afecta o comportamento da Igreja.
AE – Mas não é uma manifestação de força por entidades ou ideologias contrárias à da Igreja?
JO – Se sim, é de lamentar! Chegar a esta conclusão antes ou depois da visita do Papa é a mesma coisa: é um dado com o qual teremos de saber conviver.
AE – Na abertura da última Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa [12 de Abril], falava na necessidade de promover um pensamento novo, seguindo o Papa Bento XVI. O que está em causa?
JO – Aquilo em que este Papa mais enriquece a Igreja é o facto de ser portador de um pensamento original. Nós, na Igreja, tínhamos um pensamento que chamamos escolástico. Este Papa, nesta nova época, propõe um outro tipo de pensar, a partir da evolução histórica e dos desafios da modernidade. Apresenta um novo modo de pensar que deverá ser fonte de um novo modo de agir. O Papa também refere que este pensamento global, onde tudo é tido em consideração (as diferentes formas de interpretar a vida na área da filosofia, da economia, da educação), nunca poderá desconsiderar a fé, que dá uma compreensão mais profunda a esse pensamento e abre horizontes para uma compreensão total da realidade. Daqui surgem comportamentos que são totalmente novos. Não há a coragem de aceitar este novo pensamento do Papa e por isso não se olha para alguns problemas referidos por Bento XVI com insistência (basta olhar para a última Encíclica, Caritas in Veritate).
AE – Que consequências pode trazer esse pensamento à organização da própria Igreja? Por exemplo no exercício do ministério do Papa?
JO – Já o Papa João Paulo II pedia, também a outras confissões cristãs, que o ajudassem na reflexão sobre o poder central que é Roma… Na linha do que o Concílio Vaticano II referiu e tendo em conta o pensamento da Igreja presente nas encíclicas papais, estou convencido de que nos deparamos com uma Igreja que é comunhão orgânica e hierárquica. Há aqui uma novidade muito grande, que faz com que a realidade do ministério Petrino, a realidade de Roma, seja essencialmente um serviço e não um centro de decisões.
AE – Que linhas de rumo se vão apontando ao repensar a acção pastoral da Igreja em Portugal?
JO – A história deste “repensar a acção pastoral da Igreja em Portugal” é um assunto que já tem alguns anos. Desde que assumi a presidência da CEP propus-me este objectivo como primeiro, para que na diversidade das Igrejas, que se aceita, haja um programa comum que cada uma assimile e aplique ao concreto da sua situação. Temos vindo a reflectir sobre o tema em várias ocasiões e a fazer caminho. Em particular, na última visita ao Papa (2007) fizemos uma pequena assembleia extraordinária da CEP no Colégio Português para reflectir sobre a urgência de uma pastoral nova para tempos novos. Há aqui uma mudança cultural à qual terá de corresponder uma maneira diferente de agir, por parte da Igreja. O próprio Papa estimulou-nos, com as palavras que nos dirigiu.
AE – Nessa ocasião, Bento XVI disse que era necessário “mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros”…
JO – Fazendo referência a essa frase, penso que a estamos a concretizar porque temos vindo a caminhar, em variadíssimas reuniões. Aquilo que agora está determinado e acolhido por todos os Bispos é que vamos, particularmente a partir deste ano, fazer um “itinerário sinodal”. Vamos caminhar, mas caminhar juntos, as 21 Dioceses, procurando ouvir aquilo que o Espírito quer dizer hoje a cada uma das Dioceses e a Portugal. É um trabalho conjunto que está a envolver os Bispos e que queremos que chegue aos conselhos presbiterais, conselhos pastorais, movimentos, institutos religiosos, num processo de discernimento pastoral, e não só de estudos feitos. Queremos envolver o povo para poder apresentar um projecto, um plano pastoral, não apenas para uma Diocese mas para todas.
AE – E será possível que todas as dioceses cumpram o mesmo plano?
JO – Sim, na medida em que ele encerra uma ideia chave, mestra, com algumas coordenadas. Mas depois cada Diocese terá a sua autonomia para fazer o seu plano. Uma coisa é certa: gostaríamos que ao falar de determinadas realidades, a mesma palavra fosse utilizada no Norte e no Sul do país. Esperamos que o Papa, na sua próxima visita, nos traga algumas ideias e também a força e a coragem para ultrapassar as dúvidas que possam subsistir quando à aplicação de um projecto comum.
AE – Esse projecto poderá ter implicações na autonomia de cada Diocese…
JO – Não, não queremos isso porque uma das grandes novidades do Concílio Vaticano II está precisamente no facto de a Igreja estar toda na Igreja particular. Não vamos destruir certas caracterizações e manifestações de ordem sociológica. Cada uma terá de ter o trabalho de aplicar à sua realidade aquilo que for assumido por todos.
AE – Os responsáveis pela Igreja Católica em Portugal estarão a aprender a trabalhar em conjunto, efectivamente?
JO – Penso que não se trata de aprender, trata-se de o fazer porque tudo isto leva já alguns anos e os que estão mais directamente implicados na coordenação pastoral das Dioceses é que deram origem a este corpo de ideias, de pensamento.
AE – É novo o facto de o debate envolver dados da sociologia ou da psicologia e não só da teologia?
JO – Temos tido isso em consideração e as próximas Jornadas Pastorais do Episcopado [14 a 16 de Junho] procuram saber o que é que as diversas áreas do pensar sugerem como interpelações para o nosso agir pastoral. Ao recorrer a peritos, homens da sociedade, mesmo que não plenamente identificados com a Igreja Católica, queremos ouvir as questões que as diversas áreas do saber nos lançam porque nos faz falta ouvir gente de fora.
AE – A experiência da fé, nos dias de hoje, tem de ser fundamentada de forma interdisciplinar?
JO – Já o referi e continuarei a sublinhar essa mesma ideia, a que temos de estar atentos. É por isso que hoje, na Igreja, é importante o reconhecimento não só dos carismas mas também da competência em cada área, em cada sector.
AE – Da visita Ad Limina [a Bento XVI] saiu ainda um desafio em ordem a um “recto ordenamento da Igreja”. Na sua opinião, o que é que está em causa neste alerta de Bento XVI?
JO – É um aspecto que cada Bispo terá de estudar. Alguns pensavam que seria uma referência à criação de novas Dioceses. Pessoalmente estou convencido que o Santo Padre estava a dizer-nos que seria necessário encontrar formas novas de assistência às pessoas que vivem nas paróquias pequenas, algumas situadas em zonas totalmente desertificadas. Nas várias Dioceses há um esforço para não destruir a autonomia dessas paróquias – porque iríamos criar problemas – sublinhando a importância daquilo que chamamos as unidades pastorais, isto é, um sacerdote com cinco ou seis paróquias, cada uma com a sua autonomia, onde se articulam os serviços e o trabalho é feito numa reorganização diferente.
AE – Isso inclui também uma repartição de responsabilidades por pessoas diferentes?
JO – Nessa reorganização é preciso acreditar que um padre é muito mas não é tudo. Um leigo tem também o seu lugar, o seu espaço, as suas responsabilidades e terá de assumi-las. Não é apenas um aproveitar-se dos leigos, mas reconhecer a sua vocação insubstituível.
AE – Também com responsabilidades efectivas na comunidade?
JO – Sim, com certeza. Por exemplo, na celebração da fé do Domingo, na celebração da Eucaristia, como responsabilidade própria confiada a alguns. Com certeza que isso não deixará de acontecer.
AE – E quanto a mulheres no sacerdócio, pensa que é um assunto encerrado?
JO – Eu sei que o Santo Padre, Bento XVI, o considera encerrado e, neste momento, nós também devemos fazer o mesmo, na certeza de que a mulher desempenha na Igreja um papel impressionante. Que amanhã, por isto ou por aquilo, venha a sentir-se essa necessidade, não sei…
AE – Ficaria surpreendido se isso acontecesse?
JO – Não seria necessário. Às vezes algumas pessoas falam na promoção da mulher, mas não vejo isso assim. Hoje são tantas as mulheres que trabalham na vida da Igreja, com papéis insubstituíveis. Há uma presença feminina muito grande.
AE – Nos últimos anos têm surgido iniciativas de diálogo inter-religioso, como programas na comunicação social, nas capelanias hospitalares… É uma oportunidade ou um obstáculo à acção da Igreja?
JO – Para nós é uma convicção, ainda que porventura há 50 anos não fosse. É o consciencializarmo-nos do mundo em que estamos naturalmente inseridos. Não esqueçamos que, mesmo na regulamentação da Concordata, fomos nós, Igreja Católica, a trabalhar para que se pudesse servir adequadamente os portugueses no âmbito religioso. Aquilo que a Igreja procurou para si, procurou também para os outros. O Concílio Vaticano II é eloquente sobre o diálogo ecuménico, o diálogo inter-religioso e com os diferentes. São áreas em que a Igreja terá de viver permanentemente. Talvez outrora, em Portugal, se pensasse que a Igreja tinha de ser quase que exclusiva. O que importa é que cada um siga o seu caminho para Deus, no encontro com a Palavra, com tantas outras realidades, e que a Igreja Católica possa dispor da liberdade e dos meios adequados para exercer o seu serviço.
AE – Nesse âmbito, as relações com as entidades públicas são boas?
JO – Sim. A regulamentação da Concordata demonstra-o.
AE – Apesar de não estar concluída?
JO – Faltam alguns aspectos que precisam de ser equacionados, como o património e as aulas de Moral. Mas já há regulamentação na parte hospitalar e nos estabelecimentos militares e prisionais. A própria Concordata estabelece uma comissão paritária que já está a trabalhar no sentido de interpretar os textos. Infelizmente, a comissão bilateral ligada ao património não tem funcionado, e eu não sei porquê! Da nossa parte as pessoas estão determinadas. Estamos à espera… Têm surgido algumas questões relativas ao património que talvez se pudessem ter evitado.
AE – Que oportunidade constitui para a sociedade portuguesa e para a Igreja no nosso país a visita de Bento XVI?
JO – Creio que é um momento de grande alegria e estou plenamente convencido de que será uma ocasião de festa. Numa altura que, queiramos ou não, reconhecemos como de crise, de uma certa perplexidade e, para algumas pessoas, até de um certo medo perante o amanhã e perante o futuro, a presença do Santo Padre será também um momento de esperança. Estou convencido que a mensagem que o Santo Padre vai trazer ao país, particularmente aos católicos, dará um pouco mais de tranquilidade ao momento que estamos a viver. Mas por que não pedir também aos portugueses em geral que se abram a essa mensagem, se não para a aceitar, pelo menos para a acolher e reflectir? Queremos caminhar com o Papa e sabemos que ele quer caminhar connosco, particularmente na área da missão da Igreja, que tem de ser desempenhada com autenticidade, com verdade, com responsabilidade. Creio que o povo português irá corresponder a esta vinda do Santo Padre, acolhendo a sua mensagem e manifestando a grande alegria de o termos entre nós.
Montalegre: Feira do Fumeiro tem “tendência para crescer” segundo Orlando Alves
Terça-feira, 12 de Janeiro, 2010MONTALEGRE (PRESSPOINT) – A poucos dias do arranque da 19.ª Feira do Fumeiro de Montalegre, evento que decorre de 21 a 24 deste mês, falámos com Orlando Alves, vice-presidente da Câmara de Montalegre, com o fim de revelar as novidades e consequências da nova legislação. Um ponto de situação sereno de um evento rejuvenescido à custa, entre outros factores, de um investimento cuidado. Mais de 60 mil pessoas são aguardados no “S. João das Chouriças”.
- Quais são as novidades para a edição deste ano?
- Não há nada de especial a assinalar, a não ser o enquadramento da feira nos pressupostos da nova legislação. Estes, de certa forma, facilitam a vida ao produtor, embora não deixe de o responsabilizar por uma série de procedimentos que têm que adoptar e onde as condições de manuseamento e de apresentação final do produto são alvo de inspecção e de aprovação por parte da autoridade sanitária concelhia. O veterinário municipal tem a incumbência de emitir um parecer para que ao produtor seja atribuído um número de exploração. Este número permite a apresentação em qualquer certame da União Europeia, ao contrário daquilo que acontecia com o figurino legislativo anterior, em que estavam confinados à comercialização num raio de 40km.
- A Feira do Fumeiro de Montalegre tem vindo a ter, nos últimos anos, um forte crescimento. Como a situaria no panorama nacional?
- A feira efectivamente cresceu e atingiu o pico há muito tempo. Temos assistido a um declínio por parte do número de produtores, no entanto, as quantidades estão salvaguardadas e têm crescido. Isto é um bom sinal. As pessoas estão a encarar esta situação como um salvo conduto para a resolução dos seus problemas económicos e vêem a feira como um escape lucrativo. Quando as pessoas agarram uma ideia com alma e coração, naturalmente que se aperfeiçoam e é daí que surge a qualidade que o produto terá que ter. Estamos num espaço concorrencial e é preciso ter consciência que a venda só é possível se o artigo for bom, bem apresentado e vendido a preços razoáveis.
- O certame tem vindo a contribuir para o desenvolvimento da economia do concelho, nomeadamente com o aparecimento de novas unidades industriais de transformação de carnes. Qual a evolução que se tem verificado e qual a sua importância no contexto actual?
- A importância é enorme. Independentemente das unidades fabris de cariz industrial que surgiram e de outras que estão na calha, para eventualmente poderem aparecer, a verdade é que é preciso considerar que existem perto de 200 produtores e que esses representam cerca de 200 pequenas indústrias espalhadas pelo concelho. Há, portanto, aqui, uma actividade que é geradora de riqueza, uma actividade de fomento e que propicia também a coesão territorial. Numa aldeia onde houver uma ou duas famílias a viver do fumeiro existe consequentemente uma actividade que ali implantada e todas as actividades são geradoras de movimento, de riqueza e de atracção. O objectivo da feira e o seu grande segredo é exactamente este. A feira foi algo que surgiu no nosso espaço e está a ser bem aproveitada pelos produtores que estão a rejuvenescer. O rejuvenescimento é bom que aconteça, pois quem vier e souber apresentar-se com artigos de qualidade, praticando preços razoáveis, obviamente que tem sucesso e não precisa de emigrar para o estrangeiro.
- Em edições anteriores houve algumas críticas a produtores que preferiram fazer negócio fora da feira. Como pretende atrair esses produtores a exporem no certame?
- Muito pelo contrário, eu não critico essas situações. São de louvar. São situações reais. Há já alguns dias que muita gente que está a vender fumeiro. Existe um número considerável de pessoas que não precisam da feira para se exporem e comercializarem os seus produtos. O que pretendemos para os nossos habitantes é que haja muita gente a criar os seus próprios canais de comercialização para que se desenvolva mais esta actividade e que não haja produção apenas para os dias específicos da feira do fumeiro.
- A romaria ao S. João das Chouriças já faz parte da tradição da feira. Em que medida é um facto de atracção de visitantes?
- É todo o panorama em si. Por um lado a nossa forma simpática de receber e de acolher as pessoas e a forma como nós nos apresentamos. Por outro lado temos o frio que se torna apelativo e sedutor para muita gente. A gastronomia não pode ser esquecida, pois esta vai acompanhando toda a dinâmica e em certos anos foi motor de sucesso e de canalização de muita gente para Montalegre. E como não poderia deixar de ser, o fumeiro em si e sobretudo a ruralidade que ainda é possível apresentar mesmo num pavilhão como é este que agora o município dispõe. Apesar do estilo demasiado urbano, conseguimos sempre atribuir-lhe um toque de ruralidade. Quem vive na cidade aprecia muito essas coisas, gosta de vir, comer bem, divertir-se, estar a ver como a fogueira crepita… São muitos segredos que a feira tem e muitos apelos que a feira faz. É isso que torna a feira intensamente vivida e participada.
- 60 mil pessoas é a previsão de visitantes no certame. Está dentro das expectativas, tendo em conta a evolução da feira?
- Andará mais ou menos por aí, mas com tendência a crescer. Não tenho dúvida que a tendência é de crescimento. O concelho de Montalegre está bem situado, estamos na proximidade do litoral e é dai que vem a urbanidade e dela provêm os nosso clientes e visitantes. A tendência do número de visitantes será sempre a aumentar, desde que nós saibamos recebe bem e oferecer boa comida a preços módicos.
Braga: Uma vida de Acção Católica
Quinta-feira, 5 de Novembro, 2009BRAGA (PRESSPOINT/ECCLESIA/LUÍS FILIPE SANTOS) – O Padre Avelino Cardoso, da Arquidiocese de Braga, desfia, em entrevista à Agência ECCLESIA, as memórias do seu serviço junto dos trabalhadores cristãos, com passagens pelo Maio de 68, o Estado Novo, deixando um olhar de esperança para o futuro da Acção Católica em Portugal (ACP).
Agência ECCLESIA (AE) – A Acção Católica tem 75 anos e o Pe. Avelino Cardoso doou cerca de 50 de vida a este organismo da Igreja?
Pe. Avelino Cardoso (AC) – Não quero ser tão ambicioso. Em Setembro, de 1961 Comecei a ser assistente diocesano de Braga da Liga Operária Católica Feminina (LOCF). Dois anos depois passei a ser também assistente da LOC Masculina. Não podemos esquecer que até 1974 havia dois movimentos: feminina e masculina. Quero sublinhar também que fiz um intervalo de três anos (1984/87). Estive em Inglaterra como capelão da comunidade portuguesa. Aí, de facto, não foi um trabalho com a Acção Católica (AC).
AE – O seu «mestre» nestas andanças foi Monsenhor Horácio de Araújo?
AC – Foi ele que me chamou e esteve na génese… Mas a minha vocação nasceu em casa.
AE – Pois, os seus pais foram militantes da Acção Católica.
AC – Eram militantes e, ainda por cima, eram operários. A mãe tecia, num tear manual, em casa. O pai era carpinteiro. As minhas irmãs e o meu irmão trabalhavam nas fábricas têxteis. Eram todos da Acção Católica. O meu irmão – andou no Seminário alguns anos – fundou mesmo a Juventude Operária Católica Masculina (JOCM). Em minha casa só se falava de trabalho, fábricas e Acção Católica.
AE – Era um «Ver, Julgar e Agir» permanente e diário?
AC – Se calhar sim. (risos) Mesmo antes de tempo… Foi um privilégio. No entanto, quem me meteu o «bichinho» foi o pároco da freguesia, Mons. Horácio de Araújo, que era um homem extraordinariamente crente e amante do movimento. Ele fundou muitas secções da parte jovem nas paróquias vizinhas. Eu tinha muito tempo livre nas férias (andava no Colégio D. Diogo de Sousa) e ele aproveitava – sempre que podia – para me meter ao lado dele nas actividades da Acção Católica. Às vezes até se fazia ausente…
AE – Apercebeu-se das suas qualidades para trabalhar nesta área.
AC – Só sei que a vida dura de casa ajudou. Deixei de ir para o seminário em determinado ano porque «perdi» dois anos sem nunca ter reprovado. Era pobre e fiz trabalho infantil. Fui para o seminário com 14 anos (no final da 2ª Guerra Mundial), mas devia ter ido com 12 tal como os meus colegas.
AE – O seu pai também era um «apaixonado» pela Acção Católica?
AC – Sim. A minha mãe era mais caseira. Tinha o espírito da Acção Católica porque os filhos e o marido falavam muito da AC sobretudo das reuniões e da revisão de vida.
AE – Nos primeiros passos da AC foi participar, em Fátima, numa semana de estudos da JOC e JOCF. Lá encontrou pessoas que o marcaram?
AC – O Pe. Jardim Gonçalves e o dr. Narciso Rodrigues que eram assistentes nacionais destes movimentos. Vim de lá profundamente tocado. Olhei para duas pessoas grandes demais para mim. Valeu a pena ir a Fátima só para conhecer aquelas duas figuras que foram assistentes extraordinários.
AE – Passado algum tempo, o D. Francisco Maria da Silva (Bispo de Braga) convidou-o para novas funções.
AC – Em Setembro de 1961 chamou-me ao Paço Episcopal para me pedir que aceitasse ser assistente da LOCF da diocese e uma espécie de adjunto do assistente diocesano da JOCF.
AE – Quantos anos esteve a desempenhar esse cargo?
AC – Estive 5 anos. Em Julho de 1966 fui para Paris para assistente das Equipas Apostólicas Portuguesas (nome dado à JOC, JOF e LOC constituídas entre os emigrantes).
AE – Ainda se recorda da frase “avança Avelino que aquilo é melhor do que frequentar uma universidade”?
AC – Lembro-me muito bem. Como estava indeciso – demorei bastante tempo a responder ao convite – o Dr. Narciso Rodrigues disse aquela frase que pesou muito e fui.
AE – Partiu, mas passados três anos voltou a Braga.
AC – O D. Francisco da Silva disse-me: “Vais, estás lá dois anos, no máximo três, e voltas porque preciso de ti aqui”. O nosso «patrão» é o bispo e tive de obedecer.
AE – Aquela frase premonitória concretizou-se?
AC – Sim. Foi uma abertura a todos os níveis: eclesial (a Igreja de França era muito aberta), Acção Católica Operária e no mundo do trabalho. Já não falo do mundo da emigração porque não fui para ser missionário dos emigrantes. Fazia isso voluntariamente… Tínhamos uma relação muito profunda com os dirigentes e assistentes da Acção Católica Francesa.
AE – Saiu de um país periférico para sentir as influências do «Maio de 68»?
AC – Eu vivi o «Maio de 68». Foi uma surpresa para toda a gente. Começou pelos estudantes, mas alargou-se por todas as classes sociais. Recordo porque me marcou muito as palavras do cardeal de Paris. Às vezes, no final do dia, andava disfarçado nas ruas para ver o que se passava. Na festa do Corpo de Deus fez uma homilia muito interessante: “nós, os cristãos não podemos estar a olhar para o céu. Temos de olhar para o mundo e, neste momento concreto, ele é complicado… No entanto não podemos esquecer que há cristãos no meio dos trabalhadores, no meio dos polícias, no meio dos estudantes….”. Como há cristãos em toda parte, a Igreja não pode estar alheia a essa gente toda.
AE – Depois desta brisa teve de voltar…
AC – Regressei e passei a trabalhar com o Pe. António Domingues e o Pe. António Silva. Naquela altura estávamos três padres livres para a Acção Católica. Eu tinha a parte adulta operária e, dois dias por semana, dava ajuda aos alunos de Filosofia.
AE – Em 1970 recebe uma carta do seu bispo que clarifica tudo.
AC – Na missiva, D. Francisco dizia que podia fazer o quartel-general em Ronfe (a minha terra natal), para os trabalhos da Acção Católica. Com a carta depreendi que a minha missão era a Acção Católica. Correspondeu a uma opção de vida. O mundo operário merecia um padre livre.
AE – Com essa disponibilidade ia para as fábricas evangelizar?
AC – Não ia com frequência, mas cheguei a ir, especialmente com padres franceses da Acção Católica. O essencial do meu trabalho era estar nas reuniões e ter tempo para acompanhar os militantes fora delas.
AE – Foi o período áureo da Acção Católica Portuguesa?
AC – Estava no auge porque tinha muita gente, mas quando se começou a depreender as orientações conciliares - sobretudo a «Lumen Gentium» e a «Gaudium et Spes» – e o papel específico dos leigos – a sua acção transformadora do mundo - muita gente começou a hesitar e, posteriormente, começou a sair. Meter-se no mundo é complicado…
AE – Estes documentos conciliares são a razão da debandada na Acção Católica?
AC – Não queria dizer tanto. Pareceu-me que muita gente saiu por não conseguir entrar nessa dinâmica. Lembrou-me que andámos – cerca de dois anos – pela diocese a dar formação sobre o 1º capítulo (Dignidade Humana) da «Gaudium et Spes». Foi uma espécie de revolução.
AE – As suas palavras e mãos moldaram muitos cristãos bracarenses?
AC – Tenho algum pudor falar nisso, mas creio ter dado algum alento. Penso que ajudei muita gente a crescer ao nível da fé, do compromisso e do empenhamento.
AE – Em 2005, quando deixou a Acção Católica chorou?
AC – Visivelmente não, mas lá dentro… Cheguei a dizer ao mesmo bispo que não queria ser uma pessoa que se arrastasse no lugar.
AE – A Acção Católica teve problemas com o Estado Novo? Algumas vezes, António Salazar manifestou-se contra este organismo.
AC – Se pensarmos em termos de censura… Só isso já era um sinal muito claro que as coisas lhe agradavam por aí além. É lógico.
AE – O «Ver, Julgar e Agir» abriam os olhos aos cristãos e intimidavam Salazar?
AC – Especialmente, quando a «Revisão de Vida» se fazia em profundidade. Temos de concordar que nem sempre era fácil nem possível fazer os três tempos, mas quando isso acontecia era a grande escola de formação dos leigos.
AE – Os direitos e os deveres estavam presentes?
AC – Sempre quis ajudar para que os militantes se distinguissem dos outros trabalhadores na maneira como defendiam os seus direitos e cumpriam os seus deveres.
AE – Os patrões não gostavam muito dos militantes da AC porque eles estavam informados?
AC – Isso é normal. Se eles fossem menos instruídos e menos elucidados era bom para os patrões.
AE – Quando os militantes da AC queriam fazer greve tentava demovê-los?
AC – Nem demovê-los nem empurrá-los. Procurava que eles medissem bem as circunstâncias e o que estava por detrás de uma ordem de greve. No entanto alertava que o dever da solidariedade com outros é um dever importante na vida cristã.
AE – Olhavam para o Pe. Avelino Cardoso como líder?
AC – Talvez não. Mais como formador e alguém que procurava iluminar e ajudar a ver claro.
AE – A Acção Católica abrandou e deu lugar aos movimentos espiritualistas?
AC – É mais fácil trabalhar dentro da Igreja do que trabalhar cá fora, no mundo. Eu não estranho isso…
AE – A Acção Católica já morreu ou atravessa uma fase difícil?
AC – Não. Não morreu nada. Precisa é de se rejuvenescer nalguns sítios.
Vieira do Minho: Albino Carneiro – padre e político
Quinta-feira, 29 de Outubro, 2009
VIEIRA DO MINHO (PRESSPOINT/ECCLESIA/LUÍS FILIPE SANTOS) – O mês de Outubro foi profícuo em eleições que trouxeram para a ribalta o esmiuçar dos resultados eleitorais. O verdadeiro político senta-se na oposição e no poder, todavia deseja as melhores condições de vida para os cidadãos. Em Vieira do Minho (distrito de Braga), o Pe. Albino Carneiro já sentiu o sabor da derrota e da vitória no sufrágio eleitoral, mas continua com o mesmo lema: “ajudar as pessoas”.
Nunca teve vocação para a política, mas – “depois de estar 24 anos fora da minha terra” – circunstâncias “muito particulares” contribuíram para que, naquele momento muito concreto e de acordo “com a situação que se vivia no concelho, alguém me lançou esse desafio de assumir uma candidatura à Câmara de Vieira do Minho” – disse à Agência ECCLESIA. Depois de ponderar o desafio, o Pe. Albino Carneiro resolveu aceitar.
Quando falou com a Agência ECCLESIA ainda era presidente daquela Câmara minhota. No entanto, na noite de 11 de Outubro, o candidato “Unidos por Vieira” perdeu por uma vintena de votos para Jorge Dantas, o candidato da lista opositora (PS). “Uma das acusações que me fazem – tanto da oposição como daqueles que me apoiam – é que eu não sei ser político” – referiu.
Questionado sobre as especificidades para se ser político, o Pe. Albino Carneiro salienta que – “de acordo com os critérios que as pessoas me transmitem e que, de facto, se verifica no terreno, mas que não aceito porque não as coloco em prática – é preciso ser mentiroso, corrupto e saber aproveitar-se das situações”. E acentua: “por aí não entro”.
Não compreende as acusações que as pessoas fazem à classe política, mas “depois exigem a quem exerce funções neste domínio que sejam iguais” àqueles que criticam. No entanto esclarece que conhece muitos políticos que “são sérios” e que “prestam um serviço público à comunidade”. Entrou na política para “moralizar um pouco a situação que se vivia no concelho” – disse o candidato dos “Unidos por Vieira”. Este padre político tem uma “postura diferente” e “não posso ter a atitude politiqueira (dizer sempre sim às pessoas quando sei que não vou, nem legalmente nem financeiramente, resolver os problemas das pessoas)”.
Quando se candidatou à Câmara de Vieira do Minho, “as objecções que D. Jorge Ortiga (arcebispo de Braga) lhe colocou, coloquei-as eu, em primeiro lugar, à minha consciência”. Ponderou os prós e os contras e “tenho a consciência que o padre não é formado para exercer política e muito menos política partidária”. No entanto, a acção humana – “os padres não fogem à regra – é uma acção política” enquanto palavra, actividade, intervenção na comunidade e ir ao encontro das respostas sociais. A Igreja “faz política quando esta é entendida como um bem à comunidade” – frisou. E acrescenta: “nesta perspectiva não tive problemas de consciência”.
Em 2001, quando transmitiu a notícia ao arcebispo de Braga e lhe pediu para o libertar das paróquias do Arciprestado de Vieira do Minho para “não confundirmos as coisas”, ele, como “meu superior responsável, tentou demover-me da ideia”. Já participou em três eleições e conhece o sabor da derrota e da vitória. “Isso ajuda-nos a crescer” – disse.
Na sua vida de padre encontrou jovens estudantes que quando tiraram a primeira negativa “fizeram depressões”. O conselheiro dizia-lhes: “é preciso saber, conhecer e sentir a experiência do fracasso para valorizar o bom da vida”. Quem se habitua ao sucesso, a primeira vez que fracassa “sente-o mais profundamente”.
Actualmente, não tem paróquia porque “o exercício da paroquialidade está impedido, enquanto se exerce funções de político” de acordo com o Direito Canónico e o Direito Civil. Apesar destas contingências, o Pe. Albino Carneiro celebra a Eucaristia visto que “tenho que alimentar a minha fé”. “Procuro é celebrar a título privado, contudo, particularmente no tempo de Verão, ajudo alguns sacerdotes” que solicitam a sua ajuda – declarou.
Para além da vida de político, o Pe. Albino Carneiro disse que vive com uma irmã e, como os pais faleceram, ainda não se fizeram partilhas. “Tenho como hobby os pássaros”. Tem canários, periquitos, caturras e faisões, mas “falta-me o espaço”. Sempre gostou do trabalho na terra – “não só da experiência que adquiri” -, mas os pais ensinaram os filhos a trabalhar no campo.
Partiu de Vieira do Minho rumo a Santa Maria da Feira, para o Seminário dos Passionistas. S. Paulo da Cruz é o seu modelo na vida e na política. “A minha vida está à sombra da cruz e à sombra de uma doutrina que nos faz compreender a realidade da vida à luz de um sofrimento que é redentor e salvador” – sublinhou o Pe. Albino Carneiro. Deixou os Missionários Passionistas há 11 anos, mas a saudade “está presente porque foram 24 anos vividos em comunidade”.
Considera que já teve “momentos de Ressurreição na política”. Não propriamente “nas inaugurações” porque “isso é pouco importante”, mas quando vê resolvidas as dificuldades das pessoas. “A resolução dos problemas das pessoas são momentos vividos com intensidade” – afirma. O “corte das fitas” nas inaugurações é uma consequência do trabalho, todavia é a “obra que dá votos”.
Na perspectiva política, o que “dá votos é o betão”, mas “não deveria ser assim”. Ao longo dos quatro anos em que esteve como presidente da edilidade minhota “tenho feito esse discurso”. Pelo facto de ter sido presidente de Câmara tinha presença na Distrital de Braga, mas “procuro envolver-me muito pouco na discussão partidária”. Não é filiado no partido porque “os padres não podem ser filiados”, mas é apoiado pela coligação PSD/CDS. Apesar da filiação partidária estar impedida aos sacerdotes, o Pe. Albino Carneiro conhece padres que “têm filiação partidária” e “ estão inscritos em sindicatos”.
Nos últimos tempos, as necessidades das pessoas “vêm-se acentuando e, nem sempre, as autarquias têm disposições legais para poder resolver o problema”. E exemplifica: “podemos recuperar o telhado de uma casa e criar as condições de habitação para uma pessoa, mas se esse cidadão estiver acamado ou não tiver condições financeiras para comprar os medicamentos, a autarquia não pode pagar o medicamento”.
O Pe. Albino Carneiro afirma que nunca fez “homilias políticas”. Em 2001, quando se candidatou pela primeira vez, “havia sempre gente estranha nas celebrações das minhas comunidades”. Ao iniciar a Eucaristia “dizia-lhes para não terem trabalho de tirar apontamentos porque no final fornecia cópia da homilia”. Durante o seu mandato no município de Vieira do Minho, o padre político não esconde “que, enquanto a lei permite, apoiou paróquias e comunidades na preservação do património religioso” e “no tornar mais digno os espaços envolventes às igrejas”. Fez este serviço “não no sentido de manter os padres e os conselhos económicos presos” – sublinhou.
Ao olhar para as relações Igreja/Estado, o padre minhoto realça que a Igreja em Portugal “tem de pagar a factura da submissão ao poder, não me refiro ao antigo regime, mas de anos recentes” – acrescenta. “Davam-nos dinheiro e tudo estava facilitado”. No debate público e político usa com frequência – “sou acusado” – frases bíblicas. “Não posso fugir àquilo que sou”. Gosta muito do evangelista S. João. “É um evangelho muito espiritual e orienta-nos para o sagrado sem esquecer o humano”. Só nesta dicotomia, a realidade é compreensível.
Foi missionário no Norte de Angola (diocese de Uíje) – “uma experiência muito rica, onde aprendemos a relativizar as coisas” -, numa situação onde os bens primários eram quase nulos, o padre político experimentou a presença, naquelas pessoas, “do divino de uma forma muito profunda”. Aqueles três anos (de 1991 a 1994) “ensinou-nos a liberdade e o limite das coisas”. Apesar destas dificuldades, “eles vivem a dimensão da festa” de uma forma diferente.
Saiu da sua terra natal (Vieira do Minho) para o Seminário aos 15 anos e celebrou as bodas de prata sacerdotais, a 1 de Julho passado. Recorda-se, vagamente, dos tempos antes da “Revolução dos Cravos”. “As comunicações sociais não eram aquilo que são hoje”. “Meio a brincar, meio a sério”, costuma a dizer que tinha um professor – o actual director do Jornal de Vieira, o Pe. Luis Jácome – que através da música “dava-nos algumas pistas” nos períodos antecedentes ao 25 de Abril de 1974. O Pe. Albino Carneiro recorda-se de alguns folhetos – “custavam dois escudos e cinquenta centavos” – que o professor requisitava “da Capela do Rato (Lisboa)”. Através do Pe. Luis Jácome “tivemos acesso às músicas do Zeca Afonso e dos cantores de intervenção”.
Do baú das memórias, o padre político lembra-se também de um episódio passado na casa dos seus pais. “Numa noite estávamos a rezar o terço em família e chegaram três personalidades a casa. A minha mãe ficou preocupada e chamou-nos a atenção que não podíamos comentar com ninguém que o doutor fulano de tal esteve lá em casa”. Essas imagens e factos estão presentes, mas “não posso dizer que recordo bem aquele tempo”. Como era estudante quando se deu o 25 de Abril de 1974, o Pe. Albino Carneiro recorda que “aquele dia foi importante porque deixámos de ter aulas ao Sábado”. Dos seus pais recebeu uma educação que “me alertava para a justiça e a generosidade”. Filho de uma família numerosa (17 filhos), o Pe. Albino Carneiro recorda que “até nisso os pais foram generosos”. O sentido do pastoreio “está presente na minha vida” e tem a experiência do “trabalho duro”, não só enquanto missionário e membro da congregação dos Passionistas, mas também na família. “Fomos educados a trabalhar e, costumo dizer na brincadeira, que os meus pais iam presos” em relação ao trabalho infantil. E confessa: “com cinco anos ia com as ovelhas para o monte”. Não costuma gozar férias porque “não me dou sem um horário para cumprir” e algo de concreto para fazer, nem que seja com a “passarada”. É adepto do Benfica e do clube da terra, o Vieira, mas aos “meus trinta anos deixei de sofrer tanto com o Benfica”. E confessa: “cheguei a gravar os relatos do Benfica”.
Confessa que “já chorou” devido à política, especialmente “pela ingratidão das pessoas”. Na execução das suas tarefas “nem tudo são rosas” e salienta que “não é só o salário no dia 22 ou 23 de cada mês”. Como padre nunca teve salário – “na congregação a caixa era comum” – e, quando saiu há 11 anos dos Passionistas, tinha como mesada “cinco mil escudos”. Nas paróquias de Vieira do Minho vivia “das esmolas”, mas “reconheço que as comunidades eram generosas comigo”. Se não fosse em dinheiro era em bens. Antes das eleições de 11 de Outubro, o Pe. Albino Carneiro recebia mensalmente “cerca de três mil euros” e relata que, em certos dias, coloca na carteira 150 ou 200 euros, mas chega ao fim do dia sem dinheiro. “É uma velhinha que não tem dinheiro para pagar os medicamentos… Algumas situações, mas não faço alarme desses casos ” – conclui. Quando se acusam os políticos de “encherem” os bolsos, este padre esvazia-os em prol dos mais necessitados.
Braga: Associação Nacional de Agentes de Segurança Privada: “Estado permite o ‘dumping’ e desregula o sector”
Segunda-feira, 17 de Agosto, 2009
BRAGA (PRESSPOINT/JORGE PARAÍSO) - A ANASP – Associação Nacional de Agentes de Segurança Privada – tem sede na cidade de Braga e pretendem, segundo os seus responsáveis, fazer a ligação entre estes profissionais da segurança privada e os empresários, bem como a sociedade civil. Quando surgiu a primeira empresa no sector, há mais de 40 anos, ninguém fazia ideia do que seria a segurança privada em Portugal. Daí para cá, praticamente nada se fez, até surgir a ANASP.
Ricardo Vieira, presidente da ANASP, sócio n.º 1 e fundador da Associação, é pragmático e incisivo na análise do sector e dos problemas que hoje atravessa. Em entrevista exclusiva à Presspoint, lembra que “os sindicatos deste sector de actividade estão demasiado partidarizados, não dão resposta aos problemas destes profissionais”. E vai mais longe ao afirmar mesmo que “o próprio Estado é um obstáculo ao progresso da segurança privada porque permite o ‘dumping’ e desregula o sector”.
Não obstante o bom relacionamento entre esta recente associação profissional, o MAI (Ministério da Administração Interna) e o Departamento de Segurança Privada da PSP (entidade que regula o sector), Ricardo Vieira é de opinião de que está quase tudo por fazer. “O sector da segurança privada vai ‘explodir’ em termos de dimensão e peso institucional e ainda não existe uma carreira e um estatuto profissional. A PSP não tem meios humanos e materiais para fazer este trabalho e cabe à ANASP fazê-lo, mas de forma legal e regulada”, lembra este responsável nacional.
Ricardo Vieira pretende que o Estado defina rapidamente o raio de acção do sector, não cabendo, de forma alguma, a fiscalização à segurança privada. “O nosso trabalho tem de ser visto como um trabalho de prevenção e vigilância, aliás, como complemento às forças de segurança, mas nunca concorrentes”, frisa o presidente da Direcção da ANASP.
No capítulo do armamento, tema sensível a esta associação criada em Abril de 2009, Ricardo Vieira expressa de forma categórica a posição da ANASP. “À luz da actual realidade, armar os agentes de segurança privada seria um crime, o sector não está preparado para as usar. Até porque há agentes de segurança privada que de dia fazem trabalho de vigilância e à noite andam a assaltar carrinhas de valores, entre outras coisas. Concordo que as armas são necessárias, mas, antes de dotar os nossos agentes com armas de fogo, é necessário todo um trabalho de preparação e formação, no fundo, de regular primeiro todo este sector de actividade. Aliás, já tive oportunidade de expressar esta mesma opinião num artigo publicado no nosso sítio na internet», reitera.
Em relação ao crescente fenómeno da criminalidade, a ANASP tem uma posição muito firme e clara. “A falência das políticas que têm sido seguidas ao longo dos últimos anos, em todas as áreas, levou a um aumento da criminalidade em Portugal. As políticas não se mostram eficazes e criam ainda mais problemas”.
No final da entrevista, Ricardo Vieira ainda teve tempo para deixar uma mensagem clara aos empresários e responsáveis políticos: “a segurança não pode ser vista como despesa, mas sim como um investimento para o futuro. E é também nas escolas que o tema deveria ser discutido e debatido de forma clara e preventiva”, finalizou.